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12 de jan de 2008

Parmênides, Heráclito e a Caixa de Pandora


Alexandre Cabanel - Pandora

O eterno, a mudança e a esperança no porvir

Amigos leitores, estamos chegando ao final de mais um ciclo. Novamente, outro se iniciará, num eterno devir (vir a ser, porvir, tornar-se). 

A eternidade é uma espécie de presente contínuo; é o que experimentamos agora, em nossa vida, sempre em mudança. Filosofemos com os exponenciais filósofos pré-socráticos Heráclito, Parmênides e Hesíodo.

Parmênides, nasceu na cidade de Eléia, na Magna Grécia, em cerca de 540 a.C. Ele legou uma das maiores posições metafísicas radicais da história do pensamento filosófico ocidental. 

Trata-se da primeira grandiosa formulação do princípio de não-contradição; aquele princípio que afirma a impossibilidade de os contraditórios coexistirem simultaneamente. Esses dois supremos contraditórios são o “ser” e o “não-ser”. 

Para o Eleata, “O Ser é, e é impossível que não seja” e também afirma: “O Não-Ser não é e dele não se pode sequer falar”. Junto a essas duas proposições, há ainda uma terceira: “É o mesmo o Ser e o Pensar”. O ramo da filosofia que se debruça ao estudo do “Ser enquanto Ser”, chamamos ontologia.

O Ser, é ingênito e incorruptível. Impossível ter sido gerado pois se fosse, teria sido derivado do não-ser ou do ser: do não-ser é impossível, porque o não-ser não é; do ser é também impossível, porque então já seria e não haveria necessidade de ter sido gerado. 

E é também por essas mesmas razões que é impossível que se corrompa. O “Ser” não tem um passado (porque nesse caso não seria mais) e tampouco um futuro (porque não seria ainda). O “Ser” é o que há de imutável no mundo, o (tempo) presente eterno sem início nem fim. É o “agora”, é o que vivemos.

Heráclito, da cidade de Éfeso, contemporâneo de Parmênides (aquele da afirmação de que não se banha duas vezes no mesmo rio), legou o célebre aforisma de que “Tudo Flui” (Panta Rhei). Tudo muda, o tempo todo; que tudo se altera é uma certeza que temos. 

O Filósofo francês Marcel Conche afirma: “Que tudo muda, é algo que não muda. Que tudo passa, é algo que sempre será verdadeiro”. O que não muda é o devir. O que não se altera é o “Ser” (o tempo presente, o eterno “agora” do Ser de Parmênides).

Tudo passa. Mas é só no presente que nos damos conta dessa passagem. O passado já era, não é, não existe mais (embora no presente possamos rememorá-lo). 

O futuro é o porvir, ainda nem existe, não passa de uma promessa de vir a ser, tornar-se. Também, somente no presente possamos ponderar sobre o futuro; é necessário então, dispor do nosso tempo presente para imaginá-lo.

A eternidade é e, paradoxal e simultaneamente, está em mudança contínua. É agora e também será em instantes; será um outro “agora” (não mais enfadonha!), mas o será sempre.

Logo, o que caminha de mãos dadas com a eternidade parmenidiana é a certeza de mudança heraclitiana.

Ainda anterior aos Filósofos acima, o aedo (poeta) Hesíodo, em sua obra “Os Trabalhos e os Dias”, narra o mito de Prometeu e Pandora. 

O soberano do Olimpo, Zeus (Júpiter), encolerizado, encomendou ao mestre da technée, Hefestos (Vulcano), uma mulher belíssima, fascinante, perfeita, com todos os dons (pan = todos e dora = dons), juntamente com um grande e misterioso vaso (pithos = jarro) ou caixa, na versão mais corriqueira. 

Era para que os homens fossem castigados em razão de Prometeu ter roubado e lhes entregue o fogo divino. O ordenador do cosmos era contrário a esta dádiva, sabia que os homens se julgariam melhores que os deuses e esqueceriam seus deveres para com os semelhantes. 

Prometeu, conhecedor do que que estaria por vir (pro = antes e metheus = vidente), esquivou-se de tal presente, alertando também seu irmão, Epimeteu (que só sabe do resultado de uma ação depois de tê-la infringido). 

Mas Epimeteu não resistiu aos encantos da fêmea e acolheu Pandora. Dentre todos os dons com os quais fora guarnecida, ela contava também com a persuasão, a graça e a ardilosidade, a imprudência e a curiosidade: fez-se o malefício, brincadeira de Hermes (Mercúrio). 


Após muito resistir, Pandora sucumbe, abre a caixa e... tarde demais! Espantosa fonte de calamidades, dela escapam todos os males que assolam a humanidade (peste, guerra, violência, fome e miséria; também geres, a velhice maldita para o corpo e inveja, despeito e vingança para o espírito).

Desesperada, Pandora fecha imediatamente a caixa. Lá, só restou... o porvir.

O porvir, o futuro, o que está para acontecer, benéfico ou não, foi o que restou na magnética caixa, astutamente enviada por Zeus. E não poderia ser de outra forma. Ao sair da caixa, o porvir torna-se presente, passa a ser.

Santo Agostinho, ao esclarecer sobre a eternidade, dizia que ela era um presente que permanece presente, e que o real é, portanto, a própria eternidade: o perpétuo hoje de Deus (ou, para os não-religiosos, o perpétuo hoje do mundo).

Na expectativa, nós é que acalentamos a ESPERANÇA (Élpis) de que, na cidade dos homens e/ou na cidade de Deus, o porvir seja afortunado. 

Feliz e abençoada nova (eterna) caixa de Pandora para todos nós!

► Saiba mais:
Hesíodo – O Trabalho e os Dias. Trad. Mary de Camargo Neves. Ed. Iluminuras (1996)
Curso de Mitologia Greco-Romana na Galleria Borghese, em Roma, clique AQUI.

2 comentários:

Anônimo disse...

Bom dia Dra. Luciene Félix,

Envio-lhe este e-mail para lhe cumprimentar pelo interessante e erudito artigo publicado no jornal "Carta Forense", pg.52, intitulado Parmênides, Heráclito e a Caixa de Pandora - "o eterno, a mudança e a esperança no porvir".

Sou apreciador da história e da cultura greco-romana. Li, certa vez, um bom livro sobre a primeira: The Greeks, escrito por um Professor de Oxford, H. D. F. Kitto, editado pela Ediouro.

A propósito, apenas por mera alusão filológica, Parmênides, Heráclito e Prometeu, fizeram-me lembrar dos gregos atuantes e mencionados no filme do helênico Alexandre - O Grande: Parmenion, Héracles (Hércules, Alcides entre nós) e o próprio Prometeu, referido no curioso diálogo entre Alexandre e Ptolomeu, no Hindu Kush, Cáucaso: a águia que diariamente mutilava o fígado do "vidente semi-deus".

Vi vários documentários sobre o fascinante Alexandre: BBC, National Geografic etc. Porém, tirante o conhecido Plutarco, creio não disponíveis os seus outros dois "biógrafos de primeira-mão": Arriano de Nicomédia (Grego) e Quinto Cúrsio (Romano).

Que época esta para a Grécia, hein?

Demóstenes, o maior orador; Aristóteles, o grande filósofo e cientista, Diógenes, o refinado sábio, e Alexandre, um pouco de cada um deles, além do maior estrategista e guerreiro de todos os tempos!

Estou no começo da Ilíada, a Troiada (Ílion - Tróia). Gosto muito da linguagem homérica...

Já Paidéia, só folheei muito levemente... O que me dizes deste livro?

Espero não ter lhe incomodado muito com estas palavras...

Conheço pouquíssimas pessoas que gostam do assunto...

Aceite minhas cordiais homenagens,

Deus te abençoe.

Luis Dias Fernandes.
Promotor de Justiça-SP.

Anônimo disse...

Luciene,

Fico extremamente feliz com o comentário!

Bom para o jornal, bom para a filósofa e bom para o leitor!
Que maravilha.

Parabéns pelo belo trabalho que vem desenvolvendo.

Abraços,
Paulo Stanich

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ESCOLHA & CLIQUE (leia no topo). Cultura faz bem ao Espírito!

Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

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E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

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Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

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TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

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