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1 de mai de 2010

Fúria de Titãs - Perseu e Andrômeda

Pierre Mignard

Seguramente, maior precursor de nossos contos de fadas, o mito de Perseu, como todo legado grego, revela elementos universais à nossa condição humana e divina. Com direito a princesa encerrada numa torre, abandono de inocentes, hýbris (desmedida), monstros terríveis, cavalo alado e outras surpresinhas no percurso, vamos às façanhas relatadas por Hesíodo, Píndaro, Apolodoro e Ovídio entre outros aedos. Imortalizado, juntamente com Teseu, Hércules e Atalanta, Perseu é um dos quatro grandes heróis anteriores à guerra de Tróia.

Em Argos, havia um nobre rei chamado Acrísio, que desejava muito ser pai de um menino. Mas sua rainha, Eurídice só gerara uma menina, a dócil e bela Dânae.

Certo dia, curioso por saber se o destino ainda lhe reservaria um varão, Acrísio foi consultar o Oráculo de Ámom e saiu de lá transtornado: ouvira a profecia de que, não só jamais seria pai de um menino como teria sua morte causada pelo próprio neto.

Desolado, Acrísio que amava muito a filha, para não matá-la e despertar a ira das Erínias, que puniam severamente quem derramasse sangue do próprio sangue, decide trancafiá-la numa intransponível torre de bronze onde, tendo somente uma criada por companhia, estaria a salvo do desejo de se unir.



Insone pela angústia que o dominava, certa madrugada, Acrísio se levanta para tentar espairecer e qual não foi sua surpresa ao flagrar uma ofuscante e luminosa chuva de ouro caindo dos céus diretamente para dentro da torre. Imediatamente, o rei convocou sua guarda e, com violência derrubou a porta que havia selado com tanto empenho.

Espantado, deparou-se com a filha acalentando seu neto nos braços. Indagada sobre quem seria o pai, relutante, Dânae confessou que fora fecundada por Zeus. “Mas como?” Insistia o incrédulo rei.

Foi então que Dânae lhe revelou que o soberano do Olimpo se metamorfoseara (metáfora bela para o Espírito fecundado a matéria) em chuva de ouro.

Tiziano
Acrísio estava aturdido! A explicação da jovem parecia absurda, sem dúvida, mas a torre era mesmo absolutamente inviolável a qualquer mortal.

Rembrandt
Mesmo temendo vir a sofrer algum castigo por parte de Zeus, ele despacha filha e neto numa precária arca de madeira, lançando-os ao mar.


A criança exposta, abandonada ao acaso, é recorrente em diversas narrativas mítico-religiosas: Édipo, Hefestos, Hércules, Perseu, Páris, Egisto, Atalante, Rômulo e Remo, Moisés e o próprio Zeus, entre outros. Atemporal, como todo mito, infelizmente esse drama é testemunhado até os dias de hoje, quando nos chocamos com a notícia de recém nascidos abandonados até mesmo em lixeiras.

Quer seja por, mais que revelar, explicitar ato desonroso por parte de um ou ambos os progenitores, por portarem predições de infortúnios ou serem simplesmente vítimas de más formações congênitas, inocentes eram transformados em bodes expiatórios e banidos, sacrificados a fim de se ocultar uma falta ou aplacar a ira divina.

Mas, se por acaso da Fortuna escapassem à morte certa, ocorria o diametralmente oposto: eram imediatamente sacralizadas. Sobreviver era interpretado como uma mudança do sinal divino.

E, se fora essa a vontade dos deuses, por conversão do destino, esses cordeiros tornavam-se intocáveis, reverenciados, extremamente benéficos, pois portadores de bons augúrios àquela família e comunidade que os acolhera (confira a obra “O filho eterno”, do premiado e sensível escritor curitibano Cristovão Tezza).

Foi justamente isso o que aconteceu com Dânae e seu pequeno Perseu. Algas e outros alimentos marinhos submergiam, pairando ao alcance das mãos da jovem mãe, para quem o leite materno era abundante. O próprio Zeus, afastando Poseidon, providenciou que fosse a mansidão do velho Nereu a presidir o mar, mantendo-o de águas límpidas e serenas. Também convocou Eólo, o vento de brisa suave a acompanhá-los até que improvisada e fragilíssima nau aportasse em segurança na ilha de Sérifo.


Mãe e filho foram acolhidos pelo irmão do rei de Sérifo, um humilde pescador chamado Díctis e sua gentil mulher. Não tardou muito, o cruel e implacável tirano Polidectes apaixonou-se pela beleza de Dânae que, relutante em tomar quem quer que fosse por marido, só se ocupava dos cuidados com Perseu, que crescia forte e ia revelando uma personalidade desafiadoramente ousada e destemida.

Confabulando num modo de tirar o ciumento e zeloso filho do caminho, Polidectes mente que irá se casar com Hipodâmia, princesa de um reino vizinho e, a fim de comemorar a decisão, organiza um banquete. Todos os súditos o presenteiam. Perseu não tem nada a oferecer, mas, orgulhoso, no intuito de se destacar entre os demais que haviam trazido cavalos ou ouro, se precipita ao declarar, diante de todos, em alto e bom tom que traria um presente digno de um rei tão “desinteressadamente hospitaleiro”: a cabeça da rainha das Górgonas, Medusa (vide os artigos já publicados sobre Medusa: “Justiça ou Vingança” e “Palas Athena”, no site da ESDC e nesse Blog).

“Isso me agradaria mais que qualquer cavalo ou ouro do mundo”, disse Polidectes. O imprudente Perseu caira na cilada! Livrar-se do filho para poder desposar a mãe era tudo o que o rei de Sérifo mais desejava. Após reiterar que não se promete algo que não se pode cumprir – ao que Perseu, com toda altivez, reafirma: “eu a trarei”, Polidectes disfarça seu irônico sorriso de satisfação.

Filho legítimo do próprio Zeus, Perseu é afortunado. Conta com a ajuda de outros deuses, convocados a orientar e enviar os instrumentos necessários à realização de tal proeza: a espada de ouro e as sandálias aladas de Hermes, o elmo de Hades, que o torna invisível e, de Athena o reluzente escudo de bronze, além da bolsa de prata, única capaz de conter a cabeça da Górgona.

Ao vencer Medusa (sua mão fora guiada pela própria deusa da sabedoria e justiça, Palas Athena), Perseu testemunha o nascimento de Pégasus (até mesmo a criatura mais vil, traz em si algo de elevado) e, em algumas versões, de Crisaor.

Monta-o, voa e percebe que as gotas de sangue que caem se transformam em venenosas serpentes que se apressam a rastejar pela terra.

Pégasus é filho da outrora bela, Medusa com Poseidon, tendo sido concebido ao profanarem o imaculado leito da virginal Athena, que a castigou por essa aviltante infâmia transformando-a num monstro.

Enquanto isso, noutro seio familiar, a fútil e presunçosa rainha Cassiopéia, imprudentemente proclama que sua filha, a realmente deslumbrante Andrômeda, é ainda mais bela que a própria deusa Hera e as Nereidas (ninfas) de Poseidon. Essa reivindicação de superioridade sobre divindades desencadeia polemós entre os fraternos deuses Zeus, Hades e Poseidon.

Cassiopéia não tarda a ver todo reino da Etiópia refém da violenta e furiosa ira dessas divindades. Desesperado, seu marido, o rei Celeu, busca o Oráculo para saber como deveria proceder para aplacar a fúria dos deuses.

Obtém a orientação de que deve acorrentar Andrômeda ao penhasco sacrificando-a a bestial criatura de Poseidon.


Regressando da missão à Ilha de Sérifo, montado em Pégasus, de longe Perseu avista a donzela presa a um rochedo: é Andrômeda, cuja beleza do corpo, adornado somente por jóias e flores é tão paralisante quanto o olhar da Górgona. O herói avança em quebrar os grilhões, enfrenta, luta e, numa fúria de Titãs, com Medusa, vence Kraken*, o terrível monstro marinho.

Gustav Dorè
Apaixonado, com a gratidão e as bênçãos de Cassiopéia e de Celeu, casa-se com Andrômeda e parte para vingar-se de Polidectes. Chega exatamente no momento em que o ardiloso rei encontra-se no salão em festa, pronto para desposar a sempre relutante Dânae. Ordenando que a mãe feche os olhos, Perseu puxa a cabeça da Górgona pelos cabelos/serpentes, petrificando todos à sua volta.


Ansioso por regressar à Grécia e conhecer o avô Acrísio, por quem não guarda rancor, Perseu decide antes disso, participar da competição de atletismo que o rei de Larissa estava realizando. Chegada sua vez de arremessar o disco, ignorando que o avô estivesse na arquibancada, Perseu lança-o e, guiado pela vontade dos deuses, atinge-o em cheio: Acrísio tem morte instantânea. Desolado por conta desse acidente, o herói parte de Argos e funda Micenas.

Venerado em Sérifo, Argos, Micenas e também no Egito, onde foi erigido um templo em sua homenagem, Perseu foi imortalizado no céu entre as constelações setentrionais. Seu filho com Andrômeda, Eléctrion, será pai de Alcmena, que se casará com Anfitrião, ou seja, Perseu é o avô de outro grande e inspirador herói grego: Hércules.

(*) Nome tomado da mitologia nórdica, mas o monstro é o mesmo; uma espécie de Leviatã. reparem que a possui a mesma raíz semântica que Kratós (Poder).

Referências Bibliográficas:

Junito de Souza Brandão – Mitologia Grega, Vol. III. Ed. Vozes
Edith Hamilton – Mitologia. Ed. Martins Fontes
Robert Graves – Mitos Gregos. Ed. Madras
P. Commelin – Mitologia Grega e Romana. Ed. Martins Fontes
Paul Diel – O Simbolismo na Mitologia Grega. Ed. Attar

Busque outras imagens do período romântico ou de referência ao neoclássico (Peter Paul Rubens, Eugène Delacroix, Edward Poynter, Joachim Wtewael e Gustav Moreau) que retratam e imortalizam esse belíssimo mito. 

Assim que encontrar onde 'salvei', incluirei dados sobre como e quando observar a belíssima Galáxia de Andrômeda e identificar suas constelações: Andrômeda, Perseu, Cassiopéia, Cefeu e Pégasus.
 



Discutamos o 'samba do heleno doido'  (como apropriadamente definiu o amigo Alex) "Fúria de Titãs" do diretor Louis Leterrier.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

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TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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