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1 de mai de 2012

Do mito ao lógos - A Descoberta da Filosofia


“Viajante sem bagagem, a filosofia viria ao mundo sem passado, sem pais, sem família?”


O renomado historiador Jean-Pierre Vernant (1914-2007) afirma que pensamento racional possui registro civil. Data: século VI; Local: Grécia, precisamente nas cidades gregas da Ásia Menor (Jônia, Mileto, Sicília, etc.).

E, se os pré-socráticos Anaxímenes, Anaximandro, Tales, Empédocles, Parmênides e Heráclito, para citar alguns, são seus pais, os magnânimos aedos (poetas) são seus avós.

Iniciando uma nova forma de reflexão sobre a natureza, “Os filósofos jônios abriram o caminho que a ciência não fez depois senão seguir”, diz Burnet, apontando o pontapé inicial do que hoje chamamos ‘pensamento científico’.

Diferente de Burnet, Cornford fiz que a ‘física’ jônia não corresponde ao que denominamos ‘ciência’, pois não é produto da observação e tampouco faz experimentos, mas na verdade “Transpõe, numa forma laicizada e em um plano de pensamento mais abstrato, o sistema de representação que a religião elaborou.” É sobre essa transposição do mito ao lógos que versaremos.

Considerando que o pensamento verdadeiro não poderia ter outra origem senão ele próprio, Vernant afirma que foi na Escola de Mileto que o lógos se libertou do mito.

Inteligência, raciocínio e espírito de observação são qualidades que o distanciamento permite entrever no ‘milagre grego’, diz ele: “através da filosofia dos jônios, reconhece-se a Razão intemporal encarnada no tempo. O aparecimento do lógos introduziria, portanto, na história uma descontinuidade radical.”.

É sabido que o pensamento racional interroga seu passado tentando “estabelecer o liame que une o pensamento religioso e os começos do conhecimento racional.”.

Os arcaicos mitos cosmogônicos (a palavra cosmos em grego significa ‘ordem’), ou seja, que buscam ordenar a origem (gens) da physis (natureza) são retomados pelos filósofos que estabelecerão a partir daí suas cosmologias (ordem lógica).

Os primeiros filósofos utilizaram um material conceitual análogo ao dos poetas inspirados pelas musas (Homero e Hesíodo) e deram uma resposta distinta ao mesmo tipo de pergunta: como pode emergir do caos [ápeiron] um mundo ordenado?

Enquanto o mundo dos poetas é ordenado através da partilha dos domínios das instâncias da natureza entre os deuses (Zeus, o Fogo; Hades, o Ar; Poseidon, a Água e Gaia, a Terra), o cosmos dos jônios organiza-se “segundo uma divisão das províncias, uma partilha das estações entre forças opostas que se equilibram reciprocamente.”. Senso assim, não nomeiam divindades, mas elementos.

Vernant esclarece que é assim que por detrás dos elementos dos jônios (ar, fogo, terra e água), perfila-se a figura de antigas divindades da mitologia: “Ao tornarem-se ‘natureza’, os elementos despojaram-se do aspecto de deuses individualizados; mas permanecem as potências ativas, animadas e imperecíveis, sentidas ainda como divinas.”.

Chamando a atenção para o fato de que não se trata de uma vaga analogia, o autor diz que entre a filosofia de um Anaximandro e a Teogonia [obra sobre a origem dos deuses] de um poeta como Hesíodo (séc. VIII a.C.), as estruturas se correspondem até no pormenor.

Eis então, no mito e no lógos nascente, duas formas de traduzir níveis diferentes de abstração, explicitando o mesmo tema de ordenamento do mundo.

Para o historiador, esse novo “processo de elaboração conceitual [ao invés de deuses, são o úmido, o seco, o quente, o frio] que tende à construção naturalista do filósofo já está em gestação no hino religioso de glória a Zeus que o poema hesiódico celebra”.

O mito da Teogonia, por exemplo, é a ilustração de um drama ritual, um modelo da festa real da criação do Ano Novo babilônico, no mês de Nisan: “Através do rito e do mito babilônicos, exprime-se um pensamento, que não estabelece ainda entre o homem, o mundo e os deuses, uma nítida distinção de planos.” No mito, natureza (deuses) e sociedade (homens) estão confundidas.

Noutra passagem da Teogonia, a emergência do mundo prossegue com sucessivos nascimentos que se operam SEM a intervenção de Eros, ou seja, não por união, mas por segregação, tal como o que relata o aparecimento do mar, que surge da terra.

Eros, esclarece Vernant, é o princípio que aproxima os opostos – como o macho e a fêmea – e que os une: “Enquanto não intervém, a gênese processa-se por separação de elementos previamente unidos e confundidos.

Na Teogonia, diz Cornford, reconhece-se a estrutura de pensamento que serve de modelo a toda filosofia nascente – a física jônia, – e nos apresenta o seguinte esquema de análise:

no começo, há um estado de indistinção onde nada aparece;
desta unidade primordial emergem, por segregação, pares de opostos: quente e frio; seco e úmido, que vão diferenciar no espaço quatro províncias: o céu de fogo, o ar frio, a terra seca, o mar úmido;
os opostos unem-se e interferem, cada um triunfando por sua vez sobre os outros, segundo um ciclo indefinidamente renovado, no nascimento e na morte de todo ser vivo (plantas, animais e homens), na sucessão das estações do ano, enfim, de todo fenômeno.

Vernant ressalta que a obra de Cornford tinha por preocupação essencial restabelecer, entre a reflexão filosófica e o pensamento religioso que a tinha precedido, o fio da continuidade histórica, mas “marca uma virada na maneira de abordar o problema das origens da filosofia e do pensamento racional. Intentando combater a teoria do milagre grego que apresentava a física jônia como a revelação brusca e incondicionada da Razão (...)”, pois, na filosofia jônia o mito é ‘racionalizado’.

Procurou então, os aspectos de permanência e, ao insistir o que aí se pode reconhecer de comum: “(...) se tem por vezes o sentido de que os filósofos se contentam em repetir, em uma linguagem diferente, o que já dizia o mito”.

Buscar na filosofia o que há de mais antigo, destacando o que há de verdadeiramente novo “aquilo que fez precisamente com que a filosofia deixe de ser mito para se tornar filosofia.”, faz surgir um pensamento atrelado a uma nova gramática, com amplitude, limites e condições diversas.

Se o conhecimento das coisas, na mitologia, é poeticamente inspirado pelas musas, na filosofia ele é provocado pela racionalização, ou seja, toma a forma de um problema explicitamente formulado a ser resolvido. O conhecimento de saberes que o mito explicita está dado; na filosofia, deve ser buscado.

A cosmologia (ordenamento do lógos, portanto lógico) dos primeiros filósofos revela que suas noções fundamentais (segregação a partir da unidade primordial, luta e união incessante dos opostos, mudança cíclica e eterna) emergiram de um pensamento mítico, cosmogônico: “Os filósofos não precisaram inventar um sistema de explicação do mundo: acharam-no já pronto.”.

O portentoso abismo entre o Espírito (Ouranós, o céu) e a Matéria (Gaia, a terra) amainado pelo mito foi ‘aberto’ pelos desbravadores pré-socráticos. Da agonia, nos consolam melhor os deuses; À aventura, nos inquieta mais a filosofia.


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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

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TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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