SE VOCÊ PENSAR, VAI DESCOBRIR QUE TEMOS MUITO A APRENDER.

Muitíssimo bem-vindos amigos!

Muitíssimo bem-vindos amigos!

luciene felix lamy

luciene felix lamy

Meu Insta

Desfrute-o com vagar: há + de CEM artigos entre filosofia, literatura, mitologia, comédias e tragédias gregas (veja lista completa logo abaixo, para acessar clique sobre o título).

ELEITO UM DOS MELHORES BLOG'S NA WEB. Gratíssima por seu voto amigo(a)!

1 de jun de 2013

APOLO & DAFNE - O mito da origem do amor não correspondido

Apollo e Daphne por Gian Lorenzo Bernini - Galleria Borghese (Roma)
E mesmo que esteja passível de cometer um engano, um erro de pessoa, quem ama verdadeiramente é digno de nobreza”. Pausânias, n’O Banquete, de Platão.

É possível que em algum momento de nossas vidas tenhamos amado sem que fôssemos correspondidos. Mas isso não é motivo para constrangimento, pois até mesmo um deus foi irremediavelmente preterido: Apolo vivenciou a dilacerante dor da recusa e transmutou aflição em glória.


O poeta romano Ovídio (43a.C.-17d.C), que inspirou Dante Alighieri, William Shakespeare e tantos outros, expõe esse mito com ampla riqueza de detalhes. Vamos ao relato, tão apropriado nesse mês dos namorados.
O brilhante Apolo ou Febo (do grego, phobos = luz e vida) é também conhecido por Hélios (SOL). O deus da harmonia, saúde e profecia, filho de Júpiter (Zeus) e Latona (Leto) ousou subestimar um aparentemente inofensivo garoto, Cupido (Eros), detentor de poderosas flechas, tomando-o por inferior.
Desde o nascimento, Júpiter entreviu as perturbações que a imaturidade do filho da mais bela divindade – Vênus (Afrodite) – causaria.

De fato, o Amor é poderosíssimo e, aleatórias, as flechas de Cupido também causam danos terríveis.
Ao avistar o menininho (de cerca de sete ou oito anos) carregando um arco, Apolo provoca: “Ó jovem tolo, o que você está fazendo com uma arma dessas? Isso é para gente grande!”.
Aproximando-se com imponência, relata ter acabado de subjugar a terrível Píton, que nunca falha e, orgulhoso, desdenha: “O archote, meu garoto, é o melhor brinquedo para você, para pôr fogo no coração dos apaixonados. Não tente igualar proezas que são minhas!”, proibindo-o de intrometer-se com seu tipo de arma.
Percebendo a provocação, Cupido atenta que Apolo incorreu em hýbris (desmedida) e abanando suas asinhas protesta: “Seu arco acerta todas as coisas, Apolo – talvez –, mas o meu acerta você! Você se coloca acima de todas as criaturas vivas, e só por essa distância sua glória é menos que a minha”.
Ovídio relata que depois disso, Cupido desceu até as sombras de Parnasso e de lá trouxe diferentes tipos de flechas: as douradas, afiadas e cintilantes, para inspirar e despertar o sentimento de amor; e outras com ponta de chumbo, grossas e rombudas, que provoca repulsa e aversão ao amor.
Apontou a de ouro para Apolo e disparou-a, perfurando-o até a medula, através dos ossos e, com a de chumbo, mirou acertando a graciosa ninfa Dafne, filha do deus dos rios, Peneo.
Dafne tornou-se a primeira donzela amada por Apolo, mas ela estava acometida por uma forte aversão ao deus, horrorizando-se à ideia de amar, de submeter-se a um senhor.
Da parte de Apolo foi amor à primeira vista. Imediatamente queria desposá-la. Inebriado pela beleza da jovem, imaginava como ela ficaria se ricamente adornada, o quanto belas vestes a tornariam ainda mais encantadora. Enlevado pelo brilho, displicência e sedosidade de seus cabelos, sonhava acordado: “Como seriam eles penteados?”.
Contempla os olhos de Dafne, que brilham como as estrelas, seus lábios, e sabe que a contemplação não é suficiente. Maravilha-se com seu corpo, com os ombros nus, e o que ele não vê pensa que deve ser melhor ainda do que o que enxerga.
Mais fugidia que o vento, a ágil e casta donzela escapa dele. Quando Apolo a chama, Dafne esquiva-se de seu clamor, nem ouve. Em desespero, implora que não corra, diz que a ama, admira e que, se a persegue, é porque o amor o fez seu seguidor. Mas a jovem dispara, cada vez mais apavorada.
Roga que ela corra mais devagar, prometendo também reduzir a corrida, que não fuja dele como a ovelha do lobo, pois teme que se machuque.
Esclarece que não é um rude camponês ou grosseiro pastor cheirando a gado, mas legítimo filho de Júpiter: “Eu sou o senhor de Delfos (...) sou aquele que revela o presente, o passado e o futuro; pelo meu poder, a lira e a canção se harmonizam; minha flecha tem certeza de seu objetivo – só existe uma flecha assim, a que fere meu coração.”. Mas, se não amamos, que importa os atributos de quem nos ama?
Refém de uma espécie de “doença”, Apolo se vê fragilizado, impotente: “O poder da cura é descoberta minha; todas as ervas são minhas súditas. Mas, para minha desgraça, o amor não se cura com nenhuma erva; a arte que cura os outros não faz a mim, seu senhor, nenhum bem!”.
Dafne assustada e em fuga, com seus braços nus ao vento, suas vestes esvoaçantes e seus longos e macios cabelos revoltos, tornava-se, aos olhos de Apolo, mais linda do que nunca.
Ovídio relata que assim corriam o deus e a ninfa, ele, veloz e esperançoso, ela, aterrorizada: ela, com asas do medo, ele, no entanto, cada vez mais rápido, pois era “Levado pelas [incansáveis] asas do amor”.
O desespero de ambos permanece até que, totalmente esgotada, Dafne sente suas forças se extinguirem: “De longo voo, mortalmente pálida, olha para o rio de seu pai e grita: ‘Ajuda-me! Se existe algum poder nos rios, que ele transmute e destrua o corpo que despertou tanta adoração”. Roga então, ser livre e poder ignorar os deveres do himeneu.
Mal terminou de implorar, sentiu suas extremidades transformarem-se como nas de uma árvore de loureiro: seus cabelos viraram folhas, seus braços em ramos se alongaram, seus pés criaram raízes: “Tudo se transfigurou, exceto sua graça, seu brilho”. A cena inspirou muitos artistas.
Apolo presenciou a transformação com grande tristeza e a amou mesmo assim, afirma o poeta.
Colocou as mãos sobre seu coração ainda pulsando, beijou a madeira e sentiu vibrar a mais bela de todas as virgens: “Já que você nunca poderá ser minha noiva, (...) deixe que os louros adornem, doravante, meus cabelos, minha lira, minhas conquistas: deixe que os vitoriosos romanos, numa longa procissão, usem as folhas de louro para o triunfo e a aclamação”.
Num último apelo: “E, já que minha cabeça é sempre jovem, deixe que os louros sejam sempre verdes e brilhantes!”. Arrebatada, Dafne parecia consentir.
Acredita-se que a romana Dafne de Ovídio corresponda à diáfana grega Aurora, que foge sempre que a luz do sol (Apolo) surge e seus primevos raios a tocam, fazendo-a desmaiar sob os olhos do deus imortal.
Ondulando suavemente sua copa, inclinando-a em sinal de gratidão, ela concordou com as intenções de Apolo e manteve suas folhinhas de louro imperecíveis.
Ornamento a cingir a augusta fronte dos poetas e dos valorosos guerreiros que triunfam, “Apolo e seu loureiro (Dafne) estarão juntos para sempre, onde quer que se cantem canções e se contem histórias”.
Amar é tão nobilitante que mesmo quando não correspondido, tem mérito. Por isso Apolo consagrou os louros à vitória, coroando-se pela glória de ter amado.

Em memória do querido e inesquecível Mestre, Antônio Medina Rodrigues (1940-2013), doutor em Língua e Literatura Grega pela FFLCH (USP), poeta, crítico, tradutor e professor de Mitologia Greco-romana.

Desde meus longínquos tempos de Anglo, ensinando, encantando, celebrando a vida. Profundo pesar pela partida desse Sábio e adorável Leão.

Abaixo, uma de suas preciosas obras, a qual me presenteou. Minha eterna gratidão à você, Professor.




Referências bibliográficas:

Ovídio – Metamorfoses (pág. 20-23). Ed. Madras. São Paulo (2003).
Mattiuzzi, Alexandre – Mitologia ao alcance de todos (pág. 62-75). Ed. Nova Alexandria. São Paulo (2000).
Graves, Robert – Mitos gregos (pág. 32-36). Ed. Madras. São Paulo (2004).
Bulfinch, Thomas – O livro de ouro da mitologia – histórias de deuses e heróis (págs. 30-32). Ediouro. Rio de Janeiro (2006).
Hamilton, Edith – Mitologia (pág. 160-2). Ed. Martins Fontes. São Paulo (1997).
Souza Brandão, Junito. Mitologia Grega – Vol. II (pág. 86-87). Ed. Vozes, Petrópolis (2002).
Commelin, Paul. Mitologia Grega e Romana (págs. 34-38 e 71). Ed. Martins Fontes. São Paulo (1997).
Meunier, Mário. Nova Mitologia Clássica (Pág. 31-36). Ed. Ibrasa. São Paulo (1997).
Genest, Émile. As mais belas lendas da mitologia (pág. 1632). Ed. Martins Fontes. São Paulo (2000).
Related Posts with Thumbnails

ESCOLHA & CLIQUE (leia no topo). Cultura faz bem ao Espírito!

Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br