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1 de nov de 2016

O mito como fundamento da moral - Parte II

"Como um anjo caído, fiz questão de esquecer, que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”. Quase sem querer. Legião urbana. 

No artigo anterior (AQUI), discorremos sobre de que modo o homem primitivo estabeleceu uma relação entre os movimentos dos astros e os fenômenos meteorológicos e, de como, através de uma das funções predominantes da psique –, a imaginação afetiva – formou o sentido alegórico da natureza (physis), tomando-a como forças ativas intencionais a atuar propositalmente, ora o favorecendo, ora o prejudicando.

Compreender e submeter-se a esses fenômenos exteriores garantiu-lhe sobrevivência física. No entanto, diferente do visível cortejo dos astros pela abóbada celeste e de seus – relativamente previsíveis – efeitos na natureza, o que motiva as ações humanas – e aqui adentramos no terreno interno da psique – não é de tão fácil percepção sensorial (através dos sentidos).

Do ponto de vista psíquico, afirmar a possibilidade de prevermos um impasse ou conflito em nossa consciência, significa admitir que, mesmo no homem primitivo, já existia uma espécie de observação íntima, de conversa com “seus próprios botões”.

Nesse encontro consigo mesmo, que é a observação íntima, o homem afere suas intenções pois, pressente que o que sustenta as suas ações (sejam elas sensatas ou não) são suas motivações.

Quanto à qualidade moral dessas motivações, o estudioso da psique, Paul Diel, afirma que já havia sim, uma suspeita pré-consciente de autoria, suspeita essa habitualmente negada, sinal de que se encontra sobrecarregada de vergonha. 

Será à partir da análise desse sentimento de vergonha sobre nossas atitudes e suas motivações – que pode ser de sublimação OU de recalque –, que desenvolve-se a psicologia humana.

Toda a simbolização presente na narrativa de um mito [a saber, da existência de uma força ativa intencional proveniente de uma divindade e seu sentido oculto] encerra-se na análise do valor dessa confissão.

Sabemos que, mesmo sem nos darmos conta, cada um de nós, ao longo da vida, incessantemente, faz uso de uma espécie de observação íntima de nossas motivações e que essas nem sempre são dignas e virtuosas. 

Elementar que essa automática observação íntima não seja em si mesma, vergonhosa, apenas constitui-se num fenômeno biologicamente adaptativo como o instinto.

Essa observação íntima, onde o homem se coloca como réu e juiz de suas motivações ocultas, substitui a segurança do puro instinto animal, uma vez que não poderíamos subsistir se não atentássemos – incessantemente – para a intenção que subjaz a todas as nossas atividades, seja para controlar nossas próprias ações, seja para projetar na psique dos demais, os conhecimentos adquiridos em relação às motivações deles, objetivando prever e interpretar suas intenções, buscando um meio de nos impor e de nos defendermos.

Ocupamos a maior parte de nossas vidas perscrutando e interpretando, tanto as nossas próprias motivações (introspecção pessoal) quanto as motivações dos demais (introspecção projetiva).

Por deter um caráter automático e incontrolável, essa secreta introspecção-interpretação é frequentemente mórbida e o estudioso alerta que “(…) para orientar-se na vida, o homem deve evoluir em direção à lucidez sobre suas intenções secretas (...)”.


Convém atentarmos a esse imperativo – o de dever evoluir em direção à lucidez sobre nossas intenções secretas – porque, à nossa natureza biológica e adaptativa acrescenta-se algo que escondemos, muitas vezes, até de nós mesmos: um caráter mentiroso e deformador que acaba causando uma vergonha secreta, vergonha essa absolutamente susceptível de vir a ser recalcada ou sublimada, espiritualizada.

Confessar nossa mentira a nós mesmos, sublimando-a, é espiritualizar-se. No entanto, o caminho do recalque é, de longe, a reação mais frequente, pois nosso amor-próprio nos obriga a esconder nossas verdadeiras e inconfessáveis motivações.

Repudiamos sentimentos tais como inveja, ódio, mágoa, ressentimento, etc., e ornamo-nos de motivações carregadas de uma sublimidade mentirosa: “Digo isso para seu bem!”, nos apressamos a reiterar, ocultando recalque.

Paul Diel afirma que as consequências de evadir-se desse exame de consciência são desastrosos para a harmonia psíquica, pois se as motivações são falseadas, as ações também o são e, em consequência disso, advém nossos sofrimentos (até os físicos!). Desses sofrimentos e da necessidade de ultrapassá-los nos falam os mitos, sobretudo os épicos, de superação.

Talvez o único meio de se conseguir evitar ou, ao menos de minimizar o sofrimento, a dor da alma (psique), seja promover a reparação da interpretação errônea das motivações. E a própria “natureza” da psíque previu esse paliativo.

Ao amor-próprio, por exemplo, que reprime efetivamente as verdadeiras motivações, corresponde uma emotividade que se opõe à mentira orgulhosa em relação a si mesmo, que constitui um erro vital, uma falta essencial do homem.

Angustiante, a emotividade culposa adverte sobre a ruptura da integridade por conta das motivações falseadas, além de, constituindo um pressentimento de erro, ela, a culpabilidade contém necessariamente, a previsão (ainda que obscura) de uma direção sensata da vida. Sendo assim, a culpabilidade é o germe de uma orientação em direção ao sentido da vida. 

Esse “sentido da vida” só pode ser o contrário perfeito da angústia culposa (gerada pela ruptura da integridade intrapsíquica), esse satisfatório “sentido da vida” é a alegria que surge pela harmonização das motivações e de ações decorrentes, é o que culmina em paz, sem a qual não se alcança a tão almejada felicidade.

Necessária, a angústia culposa (espécie de aplicativo com o qual nossa consciência foi dotada) nos adverte sobre a perda da alegria, um pesar que exige seu próprio corretivo, exigência essa, detectada através da observação íntima.

A instância supraconsciente desencadeia o combate heroico que supera esse erro, essa “falta”, a saber, a mentira sobre nossas motivações, seu incessante cálculo de justificativa – recalque – que ousa escamotear o que orienta nossas ações. Negando-nos a encarar a nós mesmos, sofremos.

Sendo assim, a instância supraconsciente é o centro de onde emana a imagem mítica do sentido da vida, o símbolo que representa o que entendemos como sendo harmonia, alegria, concórdia, paz e felicidade.

Espelha-se, mas não é necessariamente o resultado de uma prescrição de ordem sobrenatural: ajo com sensatez, verdade e justiça porque há um “deus” (imperativo externo) que assim o determina, recompensa ou castiga.

Ajo com sensatez, verdade e justiça porque optando por viver assim me sinto bem (imperativo interno), minimizo os riscos de angústias e sofrimentos, sussurra nossa consciência. Pautemo-nos por nobilitantes motivações, pois até a natureza conspira a favor de nossa felicidade. 

Confira abaixo trechos de meu Curso de Mitologia Greco-romana.
 


Luciene Felix Lamy

mitologia@esdc.com.br
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ESCOLHA & CLIQUE (leia no topo). Cultura faz bem ao Espírito!

Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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