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1 de ago de 2017

A Volta do Filho Pródigo


O que causa mais dano: luxúria ou ressentimento? Há tanto ressentimento entre os “justos” e os “corretos”. Há tanto julgamento, condenação e preconceito entre os “santos”. Henri J.M. Nouwen

Mitos, parábolas, lendas, alegorias, enfim, são muitos os clássicos relatos que preveem e revelam no que culminam nossas emoções ao nos compararmos com nossos “homói” (iguais): raiva, ódio, inveja, ciúme, desprezo, mágoa, amargura, vingança, ressentimentos, etc.

Na sublime obra de Rembrandt (1606-1669) “A Volta do Filho Pródigo” (acima), que está no Hermitage, em São Petersburgo (Rússia), está retratado o momento em que o pai acolhe o filho pródigo (esbanjador) sob o olhar do filho mais velho.

É famosa essa parábola bíblica narrada por Lucas, que conta a história de dois irmãos: o mais velho, correto, trabalhador, obediente, sempre junto ao lar; e o mais novo, que no afã de ganhar o mundo, apressa-se a pedir logo ao pai sua parte na herança e viaja para, longe de casa, desfrutar de suas aventuras.


Depois de dissipar todo o dinheiro numa vida de devassidão, o filho mais novo cai em desgraça, começa a passar privações e, lembrando-se de que até mesmo os empregados de seu pai possuem mais do que ele, se arrepende e volta em busca de perdão: “Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou mais digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados”.


Repleto de compaixão e generoso, mais do que perdoá-lo, de braços abertos, o pai o recebe em festa, cobrindo-o de beijos: “Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, pondo-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois, este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado!”.

Já o filho mais velho, que estava no campo, ao se aproximar da casa paterna, indagando a um servo o porquê de tanta festa que escutara de longe, ouve que é por causa do retorno de seu irmão, que muito alegra ao pai.


Indignado, o filho mais velho recusa-se a adentrar ao lar; seu pai então sai para suplicar-lhe, mas ele lhe responde; “Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse teu filho [aqui ele já se distancia do irmão], que devorou teus bens com prostitutas, e para eles matas o novilho cevado!”.

Foi quando o pai lhe disse: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois, esse teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi encontrado!”.

É fácil identificar aqueles que se encaixam no perfil do filho pródigo (gastador): trata-se do perdulário, do fanfarrão, inconsequente; daquele que se esquece que dinheiro não leva desaforo e, não demora muito, se vê rodeado de dívidas, em penúria, na miséria. É um “bon-vivant”, tal qual a cigarra da fábula, um hedonista, enredado por uma vida de prazeres, que pensa ser eterna.

Analisando este comportamento, o padre holandês Henri J.M. Nouwen afirma: “Há algo de claramente definido a respeito de sua má conduta. Depois, tendo visto que esse procedimento errado não levava senão à miséria, o filho mais jovem recobrou o bom senso, deu a volta e pediu perdão. Temos aqui uma falha humana clássica, com uma decisão acertada. Fácil de entender e fácil de aceitar.”.


Sabemos que, mais dia, menos dia, se mal-empregado, o dinheiro acaba, os amigos interesseiros se vão, e lá está a pessoa, arrasada, endividada, arrependida. Qual pai – ou mãe – não perdoaria, não acolheria em seus braços, saltitando de alegria pela recuperação do desregrado degradado? E por que assim, pronta e efusivamente procedem?

Saltitam de alegria pura e simplesmente porque amam. O amor é sempre a resposta. Esse amor filial é como – para os que creem – como o de Deus: incondicional. Não importa o que façam ou o quanto deixem de fazer, filhos – sobretudo os distantes – são muito amados e ansiados por seus pais.


Mas, e o irmão? Revoltado, é envenenado pela raiva e profundamente ressentido que ele protesta: “Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só de teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos.”.

Nessa reivindicação, condenando a alegria do pai pela chegada do irmão mais jovem, entrevemos que a obediência e o dever foram um peso, e o trabalho, uma escravidão. Ele cumpriu o seu dever, trabalhou duro, deu conta de suas obrigações, mas se tornou amargo, sentiu inveja da vida desfrutada pelo irmão mais novo. Por acalentar tais sentimentos, ele também se tornou um perdido.
 
A Volta do Filho Pródigo, por Pietro Faccini.

Ambos precisam de cura e de perdão, mas a conversão mais difícil, o resgate mais árduo é justamente o desse irmão mais velho, que se tornou um ressentido.

Nouwen esclarece que essa queixa íntima é sombria, pesada, faz com que a pessoa se ache a mais incompreendida, rejeitada, negligenciada e desprezada do mundo: “Essa experiência de não poder partilhar da alegria [do próximo] é a experiência de um coração ressentido. O filho mais velho não podia entrar na casa e partilhar da felicidade de seu pai. Sua mágoa íntima o paralisava e o deixava taciturno [quieto, calado].”.

Essa parábola lega a preciosa lição de aprendermos a reagir ao amor de Deus sobre os outros.

Vaidoso, ferido em seu orgulho, será que o irmão mais velho está disposto a admitir que não é melhor que seu irmão mais jovem, o filho pródigo?

Convém abandonarmos toda comparação, rivalidade, competições, enfim, buscar a luz, pois fora da luz, diz Nouwen, os outros sempre parecem ser mais amados pelo Pai do que eu; de fato, fora da luz, não posso mesmo vê-lo como meu próprio irmão. Na escuridão, prossegue, irmãos e irmãs, maridos e esposas, amantes e amigos se tornam rivais e mesmo inimigos, cada um eternamente empestado de ciúmes, suspeitas, ressentimentos.


E, nessa categoria de dor, afirma Nouwen, tudo perde sua espontaneidade: “Tudo se torna suspeito, constrangedor, calculado e cheio de segundas intenções. Não há confiança. Cada pequeno passo requer uma retribuição; cada pequena observação pede uma análise; o menor gesto tem de ser medido. Esta é a patologia da escuridão, daqueles que estão perdidos, precisam ser encontrados e trazidos para casa.”.

Sentir medo ou mostrar desprezo, submeter-se ou controlar, oprimir ou vitimar-se... Assim vivem, nessa luta contra a auto rejeição e o desprezo, os que optam por comparar-se. Trata-se de um combate ferrenho, árduo, contínuo, pois o mundo e seus demônios conspiram para que – nos comparando – nos consideremos sem valor, incapazes e insignificantes.

Como atesta Henri Nouwen, nem ganância, nem raiva, nem luxúria, nem ressentimento, frivolidades ou ciúmes estão totalmente ausentes em nós; nossa imperfeição pode ser vivenciada de muitas maneiras, não há ofensa, ciúme ou guerra que não tenha raízes em nossos próprios corações. Por isso é tão importante cultivarmos a gratidão, atitude que não coexiste com o ressentimento. Ao que de bom e benéfico ocorrer a um irmão, sejamos gratos.

É difícil admitir, mas talvez esse amargo e ressentido filho mais velho esteja psiquicamente muito mais perto de nós do que gostaríamos. Os “pharmakons” para esses sentimentos é a confiança e a gratidão, essas são as matérias para a conversão.

Podemos escolher, sempre podemos optar por viver nas trevas –, nos queixando, mesmo que em silêncio, cultivando o ressentimento –, ou partir em busca da luz –, alegrarmo-nos pelas bênçãos aos nossos semelhantes.


Dedicado ao inestimável e inesquecível Mestre, Prof. Dr. Marcelo Perine.


PS: Confira Programação para Itália em final de Setembro, AQUI

E vídeos disponíveis no Youtube digitando "luciene felix lamy"

Clicando sobre a imagem, ela amplia.



Luciene Felix Lamy
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-romana.
E-mail: mitologia@esdc.com.br

21 de jul de 2017

Luciene Felix Lamy - Mitologia Grega


Entrevista (06/07/2017) concedida à jornalista Clara Monforte no Programa "Olhos nos Olhos", veiculado pela TV Santa Cecília - Santos, SP


Informações sobre Curso de Mitologia Grega na Galleria Borghese, clique AQUI.







E-mail: mitologia@esdc.com.br


1 de jul de 2017

A prova da posição: não basta competência, tem de se ter moral


A maioria das pessoas não pode experimentar uma existência completa e frutífera isoladamente, pois “ser”, “existir” é entreter relações que, vividas com um espírito de mutualidade, podem produzir muitos frutos.

A participação do indivíduo no processo social pode edificar ou manter, transformar ou destruir valores sociais. Essa participação também pode implicar alegria e sucesso OU tristeza e fracasso, tal como a advinda da escravização a um ritmo alheio e insalubre de trabalho que resulta, no máximo, na manutenção da existência com relativo conforto material.

A contribuição de uma pessoa aos processos sociais – seja nas tarefas do lar ou numa empresa, nos campos ou no mar – estabelece seu lugar e função na sociedade, sendo que o caráter do relacionamento entre o “eu” individual e este fator de lugar e função também poderá coincidir e explicitar traços basilares de sua personalidade.

É em virtude disso que não se pergunta “quem você é”, mas, de praxe indaga-se: “o que você faz?”. À medida que vivemos, nosso “lugar”, nosso “ser” será por esse modo determinado, pois “ser” equipara-se a “fazer”, ao agir.


Em algumas sociedades, o fator “lugar-função” é quase predeterminado pelo nascimento e por herança (região geográfica, raça, família, classe social, etc.), no entanto, ainda que a discriminação racial, econômica e educacional limite o campo de oportunidades para muitos, nos países democráticos mais desenvolvidos, há certa liberdade de escolha (ao menos teoricamente) quanto ao lugar e função que optamos por ocupar dentro da sociedade.

Uma pessoa que funcione ativamente, de acordo com o lugar por ela ocupado na sociedade, tem uma “posição”, onde vemos combinados muitos elementos sociais e psicológicos, que permite a ela exercer algum tipo de influência e autoridade, adquirindo um “status” – do ponto de vista social – de destaque com referência a um todo operativo e organizado.

Desde que a função seja preenchida com competência, confere-se prestígio àqueles que a desempenham. Entretanto, uma sociedade que prestigie indivíduos que não satisfaçam, ativa e eficazmente suas funções com retidão de caráter torna-se uma sociedade pervertida em seu “télos” (propósito).

A posição do ser humano na sociedade tem de ser uma fruição social de sua identidade individual, ou, dito de outro modo, a prova e a consagração de sua realização como indivíduo no meio em que vive. O crivo sobre seu ser enquanto indivíduo deve ser observado com acuidade pela sociedade antes de outorgar prestígio e conferir autoridade.

Essa “com-sagração” suscita uma questão nevrálgica, pois a união de uma pessoa com uma função significativa pode ser a consumação de toda a sua existência. A posição que ocupamos pode coroar aquilo que almejamos e podemos ser.


Nenhuma posição é menos nobre e digna que qualquer outra: a dona de casa que vai ao supermercado, prepara os alimentos e cuida da casa, o gari que recolhe o lixo, o advogado e o juiz, o artista e o político, todos somos necessários. O que importa é a maneira pela qual as pessoas desempenham essas tarefas, pois isso determina não só a sua situação ética (social) como também sua situação moral (pessoal).

A qualidade desse desempenho é determinada também pela maneira com a qual – gradativamente – as pessoas se prepararam e foram preparadas (referimo-nos à educação), pois não se pode participar ou contribuir com o que não se tem.

No exercício de suas funções, as pessoas podem vivenciar circunstâncias nas quais detêm poder e autoridade, mas a autoridade que uma função confere não é um poder emanado pelo indivíduo enquanto organismo isolado e sim, fruto da interdependência e cooperação acordados pelo grupo.

Este poder (oriundo da função ou do cargo que se ocupa) pode ser custódia OU pilhagem. A tragédia de nossa democracia individualista está em – sutil ou grosseiramente –, fazer o sujeito considerar todo o poder ou autoridade que lhe vem parar às mãos como sendo decorrência de seus méritos, como algo inerentemente (e sem reservas morais!) “seu”, e não prerrogativa que logra por ocupar com honradez uma função dentro do “Todo”.


Suscetível, este poder ou autoridade corre o risco de ser usado como se bem entender, sem levar em conta a função social: o poder ou autoridade não é um fator “privado”, mas “público”. 

Sempre que o indivíduo adquire poder por causa de sua posição (ou função), esse poder deve ser considerado custódia. O poder do policial, do juiz, do médico, do general e de todas as autoridades públicas, por exemplo, é, e com razão, uma custódia. Isso porque trata-se de um poder decorrente do cargo, nascido da função social.

São muitos os indivíduos que chegam aos altos cargos por mérito pessoal. Mas o poder do cargo advém da função social que esse cargo representa, não necessariamente do mérito, passível de vir a ser simulado. Eis a origem da confusão que transmuta o poder democrático – autoridade legítima – em poder autoritário, que é a tirania. Compreender essa visceral discrepância permite-nos diferenciar os lícitos detentores dos meros usurpadores do poder.

Simulando mérito, o individualista grosseiro viola a sociedade a fim de alimentar sua insaciável ambição. Utiliza os recursos da “res publica” para promover seus interesses pessoais. No processo, perde-se todo o sentido de consagração pessoal a uma tarefa, negligencia-se o valor ético da “posição”, que é eclipsado.

Usar do cargo, da posição para obter vantagens pessoais é perversão de valores, pois toda vez que um indivíduo usurpa o poder social inerente a seu cargo ou função a fim de expandir seu ego e sua riqueza toda a sociedade padece.

Sempre que o núcleo central de poder e autoridade, que é o Governo, compactua com a decadência moral de seus servidores, arruína toda a nação.

Urge que haja harmonia e consenso entre essas polaridades: o indivíduo precisa exercer poderes inerentes ao cargo, mas esse exercício deve pautar-se pela ética, estar sob custódia e sempre em prol da coletividade.

Indivíduo e sociedade se encontram quando o homem e seu cargo tornam-se uma coisa só (e ambos, sagrados!), até porque, permitir que o homem se valha do poder e da autoridade decorrente de seu cargo para satisfazer os caprichos de seu ego e de sua ganância é um assombroso crime, pois de alcance gigantesco e profundo, é também fatal.


Joguete, refém de todo o tipo de perversidade (desemprego, balas perdidas, vícios, prostituição), o povo definha, morre, ao passo que os prepotentes, sem respaldo moral, se tornam cada vez mais arrogantes e autocráticos, pois vaidosos imaginam serem os únicos capazes de ocupar a posição que ocupam. 

Em linhas gerais, eis o que redunda no nefasto retrato da purulenta situação política de nosso vilipendiado país.


luciene felix lamy
colunista de filosofia do jornal jurídico carta forense (sp)
professora de filosofia e mitologia greco-romana na galleria borghese (roma) e pinacoteca benedicto calixto (santos)
coordenadora da oficina minha biografia na pinacoteca benedicto calixto (santos)
colunista de astrologia & arte no consueloblog (florença)



Inspirado na obra "Tríptico Astrológico" do Filósofo, astrólogo, cristão, Dane Rudhyar (A prova da posição - Capricórnio).

28 de jun de 2017

Oficina "Minha Biografia"

ESTREIA HOJE (das 17 às 18h) na Pinacoteca Benedicto Calixto

O point + Cult de SANTOS!


Confira mais detalhes, AQUI.



21 de jun de 2017

Encontros Filosóficos



Sartre: Entre quatro paredes (Huis Clos) - “O inferno são os outros”


Dentre os riscos de se deixar pautar por valores alheios está o de viver uma vida destituída de sentido pessoal. Ponderemos agora como o ser humano, enredado pela má fé, acaba por delegar a terceiros a angustiante responsabilidade de decidir sobre sua vida. 

Como piolhos, viver pela cabeça dos outros pode tornar nossa existência um inferno. Mas afinal, quem são “os outros”?

O Filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), além das famosas obras filosóficas (“A Náusea”, “O Ser e o Nada”), escreveu romances, contos, peças teatrais e atuou também como crítico literário e de artes. 

Seu trabalho não está dissociado de sua biografia: órfão de pai aos dois anos de idade, foi prisioneiro dos nazistas durante a 2ª guerra mundial e ativista militante. Foi leitor voraz de Kierkegaard, Schopenhauer, Nietzsche, Espinosa, Bergson, Stendhal, Hegel e de Husserl, entre outros. 

Embora o cristão Sören Kierkegaard seja considerado precursor do existencialismo moderno, o sartriano será ainda mais radical, posto que ateu.

Até Sartre, considerava-se válida a doutrina solipsista, ou seja, do que se tinha consciência era do “eu” individual e essa formava o que entendíamos por realidade. 

Mas ele irá afirmar que antes mesmo de uma consciência intencional há, de fato, uma espécie de vazio, como se nossa consciência fosse uma tábula rasa, uma folha de papel em branco, um lugar onde repousa a liberdade absoluta e de onde, a partir daí as escolhas serão conscientemente apontadas.

Suponhamos que nossa consciência seja uma espécie de “ser em si” (é o que é) mas que ainda não é tudo. A toda relação que essa consciência estabelecer denominaremos “ser para si”. 

Logo, a consciência está em branco, sempre se lançando ao exterior (ser para si), construindo “sua” realidade. Ela não passa de um nada, não tem significado até que alguma escolha seja feita.

Esse seria então o ser da consciência humana: um nada que se projeta para se tornar algo: “A consciência não é uma entidade “espiritual” pré-concebida, mas uma intencionalidade que não é nada em si mesma, mas que tem de formar-se com o mundo no qual está”. 

Sartre surpreende, ao afirmar: “a existência precede a essência”, ou seja, não há essência humana anterior a existência do homem. Para ele, “O homem [existe] primeiro e somente depois ele “é” isto ou aquilo: é lançando-se no mundo, sofrendo nele, lutando nele que aos poucos ele se define, e a definição permanece sempre aberta”. 

Se o homem se apresentou no mundo sem ser concebido por algum projeto divino, cabe a ele produzir sua própria essência, será o que fizer de si mesmo. Eis o primeiro princípio do existencialismo ateu.

Mas Sartre salienta que quando nos abstemos da responsabilidade por nossas escolhas, estamos agindo segundo aquilo que denominou “má fé” da consciência, ou seja, estamos nos isentando de atentar para a liberdade que temos à nossa inteira disposição, de graça. 

A má fé consiste em fingirmos não ser livres e podermos então, debitar nossa infelicidade ou fracasso à causas externas a nós (os pais, o “inconsciente freudiano”, o ambiente, a personalidade indômita etc). Sartre chama isso de covardia. Não sendo livres para deixar de ser livres, estamos, pois, “condenados à liberdade”.

Esse “ser” construído através daquilo que se escolhe (até mesmo quando não se escolhe já está se escolhendo) pode ser explicitado também através da relação com os outros. Essa relação se dá pela experiência do olhar, do corpo. O olhar do outro me objetiva, me torna real. 

O outro atesta minha existência e isso instiga e inquieta.  Desencadeia uma crise de aceitação pois só desejo ver refletido no outro o melhor de mim mesmo. Porém, o outro enxerga mais do que gostaríamos, desconhece nossas motivações interiores.

Na peça teatral “Entre quatro paredes” (1944), Sartre pondera-se sobre a questão da imagem e ilustra suas ideias filosóficas. A fenomenologia do Outro e do “ser para outro” foi um dos mais bem-acabados pensamentos de Sartre. A dialética humana de “ser um com o outro” é central: ver e ser visto corresponde a dominar e a ser dominado.

Após morrer, três indivíduos vão parar no inferno (não se trata do estereotipado inferno cristão, com diabinhos, fornalhas etc.). Garcin, era um homem de letras. Pretendia ser um herói e foi um covarde. Seu maior tormento é que suas novas companheiras desvendam sua condição de covardia, que não pode ser mudada. É em vão que luta para fugir da pecha de covarde.

Estelle é uma fútil burguesa que ascendeu socialmente pelo casamento. Em nome do conforto, assassinou o bebê que teve com o amante e vê este, tomado pelo desgosto, suicidar-se. Tenta redimir-se atribuindo sua culpa ao destino. Deseja a paixão como forma de escapar à realidade.

Inês é homossexual, funcionária dos correios, agressiva, admite suas culpas. É a única que não procura se desculpar e compreende estar no inferno. O ódio a alimenta; sádica, goza com o sofrimento dos outros.

Não foram parar no inferno à toa: cada um responde por um crime. Estão confinados numa sala, sem espelhos, sem necessidade de se alimentar ou de dormir, por toda eternidade. São obrigados a se ver através dos olhos dos outros; olhos esses que não teriam sido os escolhidos para se conviver.

Vaidosa e egoísta, é patético o desespero de Estelle por um espelho. Inês arregala os olhos para que ela possa se enxergar: ela se vê, tão pequenina.... Tudo isso os incomoda bastante, pois não conseguem enganar uns aos outros por muito tempo e, aos poucos vão se constrangendo cada vez mais.

Inês tentará conquistar Estelle, que a repudiará. Estelle, por sua vez, buscará a paixão de Garcin, que a ignora. Inês, interessada em Estelle, jogará um contra o outro, explicitando as faltas deploráveis de ambos; faltas essas que nenhum quer admitir. 

Numa convivência insuportável, Estelle, revoltada, tenta matar Inês, mas ela dá boas gargalhadas: já está morta. Garcin tenta, inutilmente, convencê-la de que não é um covarde. Não conseguindo, tenta se vingar amando Estelle diante de Inês.

Sem que possam sequer expiar suas faltas, descobrem o horror da nudez psíquica que os outros lhes evidenciam. Está revelado o verdadeiro inferno: a consciência não pode furtar-se a enfrentar outra consciência que a denuncia, por isso: “o inferno são os outros”.

“Os Outros” são todos aqueles que, voluntária ou involuntariamente, revelam de nós a nós mesmos. Algumas vezes, mesmo sufocados pela indesejada presença do outro, tememos magoar, romper, ferir e, a contragosto, os suportamos.

Uma vez que a incapacidade de compreender e aceitar as fraquezas humanas torna a convivência realmente um inferno, o angustiante existencialismo ateu sartriano não nos deixa saída. Sem o mínimo de boa-vontade, não há paraíso possível.

► Saiba mais: Entre quatro paredes – Jean-Paul Sartre. Tradução: Alcione Araújo e Pedro Hussak. 3ª ed. - Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2007.


Luciene Felix Lamy  - Email: mitologia@esdc.om.br

1 de jun de 2017

O mito de Filêmon & Báucis

 
“Os deuses olham pelas pessoas boas, e quem nutre será nutrido. ” Ovídio

Atemporal, a “Paidéia” (pedagogia) presente nos mitos norteia e promove ações justas, indicando comportamentos virtuosos. Neste “mês dos namorados”, trazemos o romântico relato do casal de idosos Filêmon e Báucis, exponenciais da importância de se receber bem o “kxenós” (estrangeiro) e de como os deuses recompensam os humildes e piedosos.

Um carvalho cresce ao lado de uma tília nas colinas da Frígia ”, assim o poeta romano, Ovídio (cerca de 43 a.C.) inicia sua narrativa, mas enriquecemos esse precioso mito com as versões de Edith Hamilton, Paul Commelin e Thomas Bulfinch.


Eis que, de vez em quando, Zeus (Júpiter) disfarçava-se e, em companhia do leve, comunicativo e divertido mensageiro dos deuses, Hermes (Mercúrio), descia à terra a fim de testar a índole hospitaleira dos mortais.

Esse atributo – a hospitalidade – era especialmente caro ao soberano do Olimpo, pois, sendo ele mesmo um estrangeiro (kxenós), estavam sob sua proteção todos os vulneráveis que necessitam de abrigo em outras terras (importante: não confundir com perversos terroristas dos tempos atuais, que pagam acolhida com tragédia e dor).

Chegando à Frígia como se fossem viajantes que sucumbem ao cansaço, os deuses bateram de porta em porta, tanto nas casas mais abastadas quanto nas mais simples, rogando por alimento e algum lugar para repousar. No entanto, os habitantes inóspitos não quiseram levantar-se para recebe-los, todos se recusavam a dar-lhes guarida.

Frustrados e exaustos com tantas negativas, chegaram a uma humilde cabana, coberta de palha e, mais uma vez, bateram na porta. Surpreendentemente, ela se abriu, e de dentro surgiu uma voz muito agradável, convidando-os a entrar.

Espantados, os deuses repararam que, apesar de simples, o interior do casebre estava muito bem limpinho e arrumado. Apareceu então, um casal de velhinhos, em cuja expressão fisionômica transparecia benevolência.


Diligentes, eles deram logo as boas-vindas, não medindo esforços para que os visitantes se sentissem “em casa”. Muito atencioso, o marido, Filêmon tratou de trazer logo um banquinho para perto da lareira, enquanto sua caridosa mulher, Báucis, corria para buscar uma manta, enquanto ia contando que ela e Filêmon haviam se conhecido ainda muito jovens, que viviam naquele modesto lar desde o casamento e que sempre foram felizes: “Somos pobres, mas a pobreza não é uma coisa assim tão má quando não se tem grandes ambições, e uma boa disposição de espírito também ajuda muito. ”.

Modestos, de fato, Filêmon e Báucis não tinham vergonha de sua pobreza e para não a sentirem moderavam seus desejos, no que eram ajudados por suas boas disposições.


Do casal emanava toda tranquilidade, aquela paz e sossego que somente nos verdadeiramente satisfeitos é notória. Alegre, Báucis abanou os tições da lareira, apressando-se a pendurar logo uma panela de cobre com água, enquanto Filêmon voltava do quintal com um belo repolho. Cortaram um bom pedaço da carne de porco já defumada e apressaram-se a preparar o jantar para os hóspedes.

Zeus e Hermes observavam o quanto a generosidade e o bom coração supriam a fortuna desses anfitriões. Frágeis e ligeiras, as mãos pintadinhas e trêmulas de Báucis colocavam a mesa que, bamba, com uma das pernas mais curta, foi logo ajeitada com um caco para nivelar. 

E disponibilizaram tudo o que tinham: azeitonas, rabanetes, endívias, queijos, ovos, convidando-os logo a tomarem assento nos tamboretes para saciar a fome.

Filêmon trouxe uma jarra de vinho, que nem era de nenhuma vindima especial e, assim que o cozido ficou pronto, exalando um convidativo aroma pela casa, ele se sentiu muito orgulhoso em poder acrescentar esse luxo à ceia, cuidando de encher novamente as taças logo que as percebia esvaziar.

Os dois velhinhos estavam tão encantados em receber os estranhos que demorou a se darem conta de que algo muito estranho estava a acontecer: a despeito de quantas taças já tivesse sido bebida, a jarra de vinho nunca se esvaziava!

Estupefatos diante dessa constatação, entreolharam-se amedrontados, abaixaram a cabeça e, cerrando os olhos, começaram a rezar em silêncio. Em seguida, com a voz embargada, rogaram aos hóspedes celestes que os perdoassem pela frugalidade da ceia ofertada. 

Foi quando Filêmon lembrou-se: “Temos um ganso! Um ganso de estimação. Tenham a bondade de esperar, pois vamos prepará-lo e servi-lo em seguida. ”.

Depois de muitas tentativas – em vão – de agarrar o ganso que se refugiou entre as pernas dos deuses, Zeus os interrompe dizendo ser desnecessário tal sacrifício. E, confirmando que hospedaram deuses, teriam uma merecida recompensa, mas que puniria os que tinham negado guarida, desprezando os vulneráveis estrangeiros.

Os deuses decidem inundar tudo ao redor, poupando somente a cabana do casal de idosos, que testemunharam ela ser transformada num majestoso templo, todo em mármore e ouro.


Ao indagar a Filêmon e Báucis o que mais desejavam, ouviu: “Permiti que nos tornemos vossos sacerdotes, e que passemos a tomar conta deste vosso templo – e, já que vivemos tanto tempo juntos, não deixeis que nenhum de nós sobreviva ao outro, concedendo-nos a graça de morrermos juntos. ”

Comovido com o que ouviu, Zeus os atendeu. E, certo dia, quando enfim, chegaram à mais avançada velhice, enquanto rememoravam o passado, perceberam que folhas começavam a brotar, enquanto seus corpos iam se transformando em árvore. 

Em paz, por terem desfrutado de uma longa vida de amor e concórdia, conformados e felizes com destino com o qual foram agraciados e desejando que a mesma e única hora os levasse desta vida, ao mesmo tempo, disseram um ao outro: “Adeus, meu grande amor. ”

Pronunciadas essas palavras, entrelaçados, transformaram-se em árvores: ele, como um soberbo carvalho, e ela, uma magnífica tília. De todas as partes do mundo, chegam pessoas para admirar e honrar esse apaixonado casal.

Para Johannes e Camilla.





EM JUNHO - Na Pinacoteca Benedicto Calixto (Santos, SP):

Dia 14/6 - Curso de Mitologia reco-romana - das 17 às 19h 
Dia 21/6 - Encontros de Filosofia (Sartre) - das 17 às 18h
Dia 28/6 - Oficina "Minha Biografia" - das 17 às 18h.

Mais informações, AQUI.

Em SETEMBRO - Na Itália...


Clicando sobre as imagens, elas ampliam.


2 de mai de 2017

Schopenhauer - De como viver é sofrer (Parte II)

"Entre os males de uma instituição penal também se conta a sociedade que encontramos ali." Arthur Schopenhauer 

Prosseguindo com o pensamento e as ideias de Arthur Schopenhauer (confira a Parte I - AQUI), constatamos que sim, os animais se satisfazem muito mais do que nós com a simples existência, que encerra menos sofrimento, mas também menos alegrias. 

Isso porque – como ele esclarece –, o animal permanece livre das aflições, dos tormentos e das preocupações, no entanto, por dispensar a esperança, não participa da antecipação de um futuro alegre que se dá por meio dos pensamentos imaginativos, fonte de tantas alegrias e prazeres para nós: “(…) a consciência humana possui um campo de visibilidade que abrange a totalidade da vida, e mesmo vai além”.

Segundo Schopenhauer, é a capacidade cognitiva superior que faz nossa vida mais sofrida do que a dos animais, de modo que podemos remeter isso [a capacidade cognitiva superior] a uma lei mais geral e alcançar assim uma visão muito mais ampla. Que visão será essa?

Conhecimento em si mesmo, afirma, é sempre indolor. Sofremos mesmo é quando a satisfação de nossa vontade está obstruída e temos consciência disso: “Que a dor espiritual seja condicionada pelo conhecimento, compreende-se por si, e que cresce conforme o grau [de conhecimento] do mesmo, pode ser facilmente verificado (…).


O filósofo diz que na infância, por exemplo, nos situamos frente ao curso do futuro de nossa vida, numa expectativa alegre do por vir, que é uma sorte não sabermos o que virá e que, condenados à vida ainda não ouvimos o conteúdo de nossa sentença e que, ainda assim, todos nós desejamos atingir uma idade avançada.



Para Schopenhauer, o mundo constitui o inferno e nós formamos em parte os atormentados, e noutra, os demônios. Antecipando-se aos que possam vir a criticá-lo, defende-se: “Agora terei de ouvir novamente que minha filosofia é desesperada somente porque me expresso conforme a verdade, mas as pessoas querem que se lhes diga que o Senhor Deus tenha feito tudo do melhor modo. Dirijam-se à igreja, e deixem em paz os filósofos.”

Miserável, imperfeito, assim é o mundo e o mais perfeito de seus fenômenos, o homem: “(…) qual crianças de pais displicentes, já viemos ao mundo dotados de culpa, e que só porque continuamente devemos expiar esta culpa, nossa existência se torna tão miserável e tem como fim a morte.”

Nada é mais certo, diz Schopenhauer, do que, em palavras gerais, o homem ser o mais grave pecado do mundo que provoca o múltiplo e imenso sofrimento do mundo; insistindo que não se indica aqui a conexão físico-empírica, mas a metafísica.

Conforme esse ponto de vista, assegura que apenas a história do pecado original – única verdade metafísica – o reconcilia com o Antigo Testamento: “Pois a nada mais nossa existência se assemelha tão perfeitamente, como à sequência de um passo em falso e de um desejo condenável.”

Para que não nos enganemos, convém que tenhamos em mente que nada se presta melhor como bússola para uma boa orientação na vida do que cultivarmos o hábito de considerar este mundo como local de penitência, e portanto também como uma espécie de instituição penal: “(…) a penal colony, uma ergastérion, como já a denominara os mais antigos filósofos e entre os anciães cristãos, Orígenes [que] o afirmava com ousadia digna de louvor, concepção esta que também encontra sua justificativa teórica e objetiva não somente em minha filosofia, mas na sabedoria de todas as épocas, ou seja, no bramanismo, no budismo, em Empédocles e Pitágoras; como também em Cícero: 'Nascemos para expiar as penas de alguns crimes contraídos na vida anterior'.”

Considerando do maior vigor a expressão de Vanini, Schopenhauer o cita: “O homem está repleto de tantas e tão grandes misérias que, se não fosse incompatível com a religião cristã, ousaria dizer: se existem demônios, eles próprios expiam as penas do crime, transmigrando para os corpos dos homens”.

O fato é que, para Schopenhauer, mesmo no cristianismo genuíno e bem compreendido, nossa existência é concebida como consequência de uma culpa, um passo em falso, diz ele.

Sendo assim, assumido o hábito – o de se considerar este mundo como local de penitência – disporemos de nossas expectativas de vida de modo a se adequarem à realidade dos fatos e encararemos as contrariedades, os sofrimentos, os tormentos e as necessidades não mais como algo inesperado e contrário à regra, porém inteiramente em ordem, muito cientes de que aqui, cada um é punido por sua existência, e cada qual a seu modo.



Mas, como se sentirá o homem bom, a bela alma, num mundo tão hostil? Schopenhauer diz que se sentirá como um nobre prisioneiro político, nas galeras, entre criminosos comuns e que procurará se isolar: “E de um modo geral a referida concepção nos habilitará a contemplar as assim denominadas imperfeições, a constituição moralmente, intelectualmente e portanto, também fisionomicamente indigna na maioria das pessoas, sem estranheza e muito menos indignação: pois sempre teremos à mente o lugar como um ser que existe apenas em consequência de sua culpabilidade, cuja vida é a expiação do pecado de seu nascimento.”

Para ele, o que o cristianismo denomina – a natureza pecaminosa do homem – constitui o fundamento dos seres, que encontramos neste mundo como nossos semelhantes. 

Em consequência da constituição deste mundo, acrescenta, se encontram principalmente e mais ou menos em um estado de sofrimento e de insatisfação, inadequado para nos tornarem mais participantes e cordiais, e por fim, que nosso intelecto, na maioria dos casos, é tal que serve mal e mal aos desígnios de nossa vontade.

É por essas diretrizes que devemos orientar nossas expectativas quanto à sociedade neste mundo. E quem adota este ponto de vista, poderia considerar o impulso à sociabilidade uma inclinação condenável, pondera.

Ainda assim, para Schopenhauer, a convicção de que o mundo, e portanto também o homem é algo que propriamente não deveria ser, é adequada a nos prover de tolerância uns em relação aos outros; pois: “O que há de se esperar de seres sob tais predicamentos?”, indaga.

Irônico, diz que o tratamento apropriado entre os homens, em lugar de Senhor, Monsieur, Sir, etc., deveria ser “companheiro de infortúnio, soci malorum, compagnon de misères, my fellow-sufferer” e que, por mais estranho que possa parecer, lança sobre o outro a luz apropriada e recorda o necessário, a tolerância, paciência, piedade, amor ao próximo, indispensável a todos, e portanto, de que todos são devedores.

O caráter das coisas deste mundo, precisamente do mundo humano, afirma o filósofo do “pessimismo”, não é tanto, como se afirma com frequência, imperfeição, mas distorção, no que se refere ao moral, ao intelectual, ao físico, a tudo.

E a desculpa para tantos vícios: “(…) isto é natural ao homem” não basta, pois na verdade deveria ser: “justamente por ser perverso, é natural, e justamente porque é natural, é perverso”, compreensível se à luz da doutrina do pecado original, fundamento que nos constitui. Trata-se de uma constituição básica má, tanto que ninguém suporta ser observado atentamente, provoca o filósofo.

Partindo dos pressupostos acima, o que esperar dos seres humanos? Talvez julguemos nossos semelhantes com mais tolerância. E não nos espantaremos se os demônios que estão em nosso interior, vez ou outra, despertem e surjam nos outros. Pois, saberemos apreciar melhor o bem que, apesar de tudo, se instalou em nós, seja por conta de nosso intelecto ou por alguma outra coisa.

Justamente pela vida constituir um estado de necessidade e de miséria, em que cada um precisa lutar e disputar por sua existência, nem sempre assumimos a expressão mais cordial, salienta. Se o homem fosse aquilo por que pretendem fazer dele todas as religiões e filosofias otimistas – a obra ou até mesmo a encarnação de um deus – quão diferente seria o relacionamento de cada pessoa conosco.

Devemos ser tolerantes com a estupidez, falhas e vícios humanos, pois o que temos diante de nós é somente nossa própria estupidez, falhas e vícios: “trata-se de erros da humanidade, a que pertencemos, possuindo também todas as falhas, mesmo aquelas sobre as quais nos indignamos, mesmo que agora não se manifestam em nós, pois não se encontram à superfície, repousam no fundo, mas se apresentarão à primeira oportunidade.

Reconhece que a diferença das individualidades é inavaliavelmente grande e que por isso em uma pessoa se ressalta um determinado tipo de maldade, noutra, revelar-se-á algum outro tipo, de outro modo, pois não se pode negar que varia-se o grau de adesão àquilo que verdadeira e antecipadamente somos: antecipadamente condenados, miseráveis pecadores.


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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

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TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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