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15 de out de 2017

Aristófanes e o mito dos andróginos no Banquete de Platão


O trecho que transcrevo abaixo é um recorte de um artigo que publiquei quando estudei “O Banquete” no Curso de Graduação em Filosofia na PUC-SP com a Titular de Filosofia Antiga, Profª Drª Rachel Gazolla. 
Para conferir o artigo completo, clique AQUI.


O comediógrafo grego Aristófanes insistirá no poder que o Amor possui e versará sobre sua natureza histórica. Com o seu famoso mito dos andróginos, legitimará a homo afetividade e a desenfreada busca pelo que denominamos “almas gêmeas”.

Eis que os seres humanos, inicialmente eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E eram também duplicados e unidos pelo umbigo.

Zeus (Júpiter, o soberano do Olimpo), temendo a presunção de tanta autossuficiência, para enfraquecê-los, divide-os em dois e cada uma das partes passará a vida à procura de sua outra metade original, que pode ser um outro homem, caso o original tenha sido a união de dois homens, uma mulher, em busca de outra OU ainda um homem e uma mulher que se anseiam, caso dos andróginos.

Para Aristófanes, o Amor é justamente essa busca constante e incansável por sua outra metade a fim de se restabelecer o original e primitivo “todo”. 

Não se trata somente de união sexual, mas de “uma coisa” que a alma de um quer da alma do outro. Sobre essa “coisa” a alma não pode dizer, mas “advinha” o que quer e indica por enigmas.

Se o ferreiro divino Hefestos (Vulcano, na mitologia romana) surgisse com seus instrumentos indagando aos amantes: “Que é que quereis, ó homens, ter um do outro? (...). Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? 

Pois se é isso que desejais, fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades (Plutão na mitologia romana), em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso amor, e se vos contentais se conseguirdes isso”.

Aristófanes diz que depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só.

Reiterando que nossa natureza é una, que éramos um só, Aristófanes conclui que é ao desejo e procura do todo que se dá o nome de Amor.

(...)

Ao ser indagada por Sócrates sobre a origem do Amor, Diotima (da cidade de Mantinéia, uma sábia versada nas artes da feitiçaria) relata-nos o belíssimo mito de que quando Afrodite nasceu, houve uma grande festa no Olimpo e que, entre os demais, se encontrava Recurso (Póros), possuidor de toda riqueza. 

Esse rico rapaz era filho da deusa Métis (a sabedoria, inteligência prática, prudência): “Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza [Penia, uma jovem mendiga], e ficou pela porta. 

Ora, Recurso, embriagado, penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando (...) engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor.

O Amor, filho de um pai sábio e rico e de uma mãe que não é sábia, e pobre, nasce sob o signo da beleza: “Eis porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela”. (...) “Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. 

Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e energético, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista (...) está no meio da sabedoria e da ignorância. (...) Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio – pois já é –, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. 

Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar (...). Não deseja, portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso”.

A estrangeira reitera que uma das coisas mais belas é a sabedoria e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o amor aspirar à sabedoria, como um filósofo. Sendo filósofo está entre a sabedoria e a ignorância.

A ação (do Amor) é o que garante aos mortais alcançar a imortalidade que lhes é possível. 

Diotima ressalta uma hierarquia sobre a concepção amorosa dizendo que há os que concebem na alma (belos pensamentos e virtudes) mais do que no corpo. Mas a mais importante, disse ela, e a mais bela forma de pensamento é a que trata da organização dos negócios da cidade e da família, e cujo nome é prudência e justiça.

Será o Amor, um grande deus? Indômita potência? Inspirador de virtudes? A divindade mais antiga? Eterno? Universal, pois presente em todo cosmos? A busca pela unidade? Belo e jovem? Um tipo de delírio? 

Filósofo por excelência? Concepção de nossa alma? Um daímon (anjo) entre o divino e o humano? Afortunada benção que garante felicidade (eudaimonia)? O que é o Amor? Entusiasmada que sou, do Belo em si platônico, vivencio-o como a assinatura do theós (divino) em todos nós.

Saiba mais:
O Banquete, ou, Do amor – Platão. Trad. José Cavalcante de Souza. Rio de Janeiro: DIFEL, 2008.


SOBRE ALMAS GÊMEAS (entrevista concedida a Revista Capricho em Fev/2008 )

Como a mitologia grega explica a existência de almas gêmeas? É algo entre homem e mulher apenas?

Um dos mitos gregos que ilustra bem a condição das almas gêmeas, é o proferido pelo comediógrafo Aristófanes no início da obra “O Banquete” (sobre o Amor) de Platão.

No famoso mito dos andróginos, os seres humanos, inicialmente, eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E também eram duplicados (dois em um só), unidos pelo umbigo. Tínhamos então, dois homens “colados”; duas mulheres também unidas e, por fim, o terceiro tipo, os andróginos, juntos e de sexo opostos.

Mas Zeus, o soberano do Olimpo, observa-os e constata que se tornaram muito presunçosos, autossuficientes, felizes. Preocupado e temendo que resolvessem escalar os céus e investir contra os deuses, decide enfraquecê-los dividindo-os ao meio para que, na busca desesperada por sua “outra” metade esqueçam do poder que possuem.

Acontece que, quando qualquer um desses três tipos encontrava sua outra metade, ficava tão embasbacada e feliz que não faziam mais nada a não ser pensar no ardor de se fundirem novamente: enlaçavam-se com seus pares iguais e não se desgrudavam. 

Ficavam inertes, pois nada queriam fazer longe um do outro. Resultado: ao menos um, morria de inanição (fome). E o que sobrevivia, tornava a buscar novamente uma outra “metade”, fosse outro igual ou mesmo diferente.

Zeus, o ordenador do Cosmos, tomado de compaixão, temendo que se dizimassem, mudou-lhes o sexo para a frente, para que pudessem gerar novos seres.

Segundo esse mito, o amor entre almas gêmeas ocorre quando se encontra no outro algo que seja igual, idêntico àquilo que já se possui em si mesmo. 

É curioso que nesse mito, o amor de homem para homem seja valorizado como estando acima do amor homem-mulher. Isso porque o amor entre dois homens iguais (homói) é de uma ordem de ideias (ideal) e interesses comuns, e o grego hierarquizava o amor, colocando o amor espiritual acima do amor físico, sensual, carnal.

Todos nós temos uma ou elas são aspectos das divindades?

Não há como afirmar a existência de uma única alma gêmea. Somos polítropos, ou seja, somos muitos. Os homens, ao antropomorfizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características humanas, não fizeram mais do que retratar a si mesmos.

Os encontros e desencontros fazem parte do que você denomina “aspectos das divindades”. E como são diversos esses aspectos! 

Há a divindade do erotismo (Afrodite e seu filho Eros), a divindade do matrimônio (deusa Hera, patrona do casamento e dos amores legítimos), a divindade da desordem, do caos, do bacanal, da orgia (Dioniso, o deus do vinho e do êxtase) e etc. 

Todos eles fazem parte de nossa psyché (Alma) e, certamente, existem almas que, num determinado momento de nossas vidas, estarão sendo “mais gêmeas” com a nossa alma que qualquer outra.

O que a nossa alma gêmea tem a nos ensinar e por que ela nos faz falta?

Se nossa alma gêmea tiver algo a nos ensinar, certamente será sobre nós mesmos. Semelhante atrai semelhante (essa é a 1ª Lei da magia, segundo Sir James Frazer em "O Ramo de Ouro"). 

Ela nos faz falta porque Eros (o poder de união) é dos deuses mais antigos e a tendência (do grego pathós) do ser humano é sempre se unir. 

É por isso que quando essa tendência se dirige a uma pessoa de forma muito insistente, ela se torna uma patologia, ou seja, uma doença. E doença do coração, da alma, só se cura com a lucidez da razão.

Há algo que possamos fazer para encontrá-la?

Sem dúvida. Basta que estejamos predispostos a isso. O grande poeta Hesíodo (600a.C), na obra “Teogonia” esclarece que Zeus, o ordenador do Cosmos é kydistos.

Kydós (Vitória) é uma derivante de Kleós (Glória). Num combate entre dois guerreiros, àquele no qual Zeus encontraste o kydós (a marca da vitória) era destinado vencer, ou seja, o vencedor já sabia que sairia vitorioso da batalha porque tinha, trazia a vitória dentro de si.

Do mesmo modo, estamos na vida como entidades livres, leves e soltas. À partir do momento em que acalentamos o interesse amoroso, o desejo de união em nós, certamente isso será captado e apreendido por alguém que esteja também desejoso de amor. Eis o segredo! Ou melhor, não há segredo.

E sobre o amor platônico?

Para o senso comum, e assim está assentado, o amor platônico é o amor ideal, perfeito e, portanto irrealizável. Ao menos por um tempo muito longo. Explico: o amor platônico se dá no campo mental, na idealização do ser amado. Acontece que tudo isso é muito lindo e maravilhoso no campo das ideias mesmo.

Mas a realidade é que vivemos aqui na terra, sujeitos às mudanças, aos humores e à corrupção de Chronos (Saturno, o deus do Tempo). Somos perecíveis, enrugamos, envelhecemos, a perfeição se esvai com o tempo. 

Mas isso não significa, necessariamente o fim do amor. Daí a necessidade de se ter maturidade para manter constância em cultivar o Amor, não somente do corpo, mas sobretudo da Alma. E vale a pena.


luciene felix lamy
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1 de out de 2017

A queda de Faetonte - quando o exibicionismo é fatal

A queda de Faetonte,por Van Eyk

Atemporais, as narrativas mitológicas revelam o que há de “humano, demasiado humano”, em nós, como diria o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Tão antigo quanto o homem, por conta da “vanitas”, o exibir-se, faz parte de nossa “natureza”.

O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, em sua obra “Discurso sobre a origem da desigualdade dos homens”, também chamou a atenção para esse fato, ilustrando que, mesmo em situação, aparentemente, de igualdade, como um grupo animado, dançando em torno de uma fogueira, por exemplo, há algo que faz com que alguns se empenhem em dançar mais e melhor que os outros, a fim de se sobrepor aos demais, angariando mais “likes”: olhares, aplausos, mais admiração.

Talvez nem convenha mesmo combater – de todo – a vaidade, pois como afirma Bastos Tigre: "A vaidade profissional [por exemplo] é virtude merecedora do máximo respeito. Ela é que estimula o obreiro a aperfeiçoar o seu trabalho para não se deixar vencer pelos concorrentes." 

Orgulhoso, Faetonte é um belo e corajoso jovem criado por sua mãe Climene. Noutras versões é filho da ninfa Rodes, que nomeia a ilha a qual o deus Apolo (Hélio, na mitologia romana) preside.

Certo dia, cansado do constrangimento de ser constantemente desafiado por seu mui amigo Épafos, filho de Zeus com Io, que vivia a provocá-lo afirmando sarcasticamente que ele não tinha pai, Faetonte confronta sua mãe, inquirindo-a sobre sua paternidade: “Eu não me envergonharia de ser filho de um mortal, mas o que me deixa triste é que venho sendo enganado por minha própria mãe! ”.



No entanto, além das juras de sua mãe, assegurando que ele era sim, filho do deus Apolo, Faetonte desejava algo mais: provar para o amigo Épafos, o quão divino e poderoso era seu pai e, por conseguinte, ele também.

Faetonte decide então procurar Apolo, o deus da harmonia, saúde e da música, para que, confirmada sua paternidade, ele o atenda num pedido que lhe confira distinção.

Recebido com festa, Faetonte sente-se acolhido por seu divino pai e o desafia a atender seu ousado e temeroso pedido: dirigir o carro do Sol. Ao ouvir o que o jovem pleiteava, Apolo recusa-se a atendê-lo.

Cônscio da inexperiência do jovem, Apolo declina, mas como já havia jurado pelo rio Stix que atenderia a qualquer pedido do filho, se vê obrigado a manter a palavra diante de todos.

Aos prantos, é em vão que Climene roga que o filho desista de tão perigosa façanha. Faetonte está decidido! Após mil recomendações à imponente parelha de corcéis, Apolo lastima: “Não é justo que a coragem de meu filho acabe para sempre nas profundezas do Tártaro.”. E, apressa-o, pois já passava da hora do Sol nascer.

Deslumbrado, é com altivez que Faetonte dá início a sua majestosa jornada, a fim de mostrar a seu amigo Épafos e os demais moradores da aldeia onde vive, quem ele é: o brilhante e invejável Faetonte, filho do próprio deus Apolo!

De fato, o jovem viu e ouviu – lá do alto – a quão poderosa e venerada era a posição que agora ocupava. Ainda de longe, os poucos, via cada vez mais e mais pessoas admiradas, muitas ainda em trajes de dormir, bocejando, erguendo os olhos aos céus, alardeando sua chegada, enaltecendo sua beleza: “O dia hoje está lindo!”; “Radiante!”; “Magnífico!”. 

Isso era o que mais ele ouvia enquanto proclamavam seu surgimento, ou melhor, do resplendoroso carro do Sol que, precedido pela deusa Aurora, trazia um novo dia, repleto de luz, de promessas e esperanças, da dádiva da vida. Acima das nuvens, Faetonte sente a glória de ser reverenciado como um deus.

Como previsto por Apolo (sim, ele também é o deus da profecia!), no afã de exibir-se para Épafos, o jovem não detém maestria para dominar a indômita parelha de corcéis que, desgovernada, sai da rota e aproxima-se demais da terra, começando a causar danos aterrorizantes: florestas, colheitas e cidades inteiras incendiadas, tanto os animais quanto os seres humanos, aflitos, correndo desesperados, de um lado para outro, agonizando em chamas, sem nada compreender do fenômeno que os acometia.

Ao constatar tamanha tragédia, Faetonte, agora assombrado, ergue as rédeas dos cavalos do carro do Sol para o alto, o que também não ajuda, pois, a terra tornava-se escura e congelada, sem o calor do Sol.

Diante do caos desses nefastos efeitos – da superfície às entranhas –, Gaia (a terra) decide, então, apelar a Zeus, para que interrompa toda aquela temeridade: homens e animais padeciam, ora carbonizados, ora congelados, por conta dos extremos de elevada e de baixa temperatura.

Sem titubear, o soberano do Olimpo dispara um raio certeiro, mesmo sem saber que fulminava o sobrinho, que precipita numa queda mortal. Desolado, Apolo abraça Climene, que sem cessar pranteia a morte do filho.

O exibicionismo, por conta da insolente vaidade, causou a morte do jovem que –, mais que estar cônscio ser filho legítimo de um deus – ansiava mostrar a todos sua singularidade.

Não é muito diferente de como agimos, sobretudo na web. Nem precisa ser a exibição de algo de inequívoca envergadura, de espetacular supremacia como comandar a LUZ, detendo o poder que Faetonte ambicionou e ousou mostrar. 

Na atual “Idade Mídia”, somos todos “faetontos” quando insistimos em alardear nossas – tantas vezes tão prosaicas e quase sempre ordinárias – façanhas (lugares, vestes e alimentos, etc.), bombardeando a todos o tempo todo, com nossos reais e/ou supostos méritos, gabando-nos, só para provar aos inúmeros duvidosos “amigos” como Épafos – o quanto somos ilustres, singulares e abençoadamente prestigiados e aclamados pelo “theós” (divino).

Curiosamente, mas não por acaso, “Nada em excesso” alerta o frontispício de Apolo, em Delfos. Quando passamos da medida – o métron grego – também “caímos do cavalo”. E, embora a queda não seja mortal como a de Faetonte, não deixa de ser patética. 

Luciene Felix Lamy
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1 de set de 2017

Princípio da utilidade (felicidade) em Jeremy Bentham

“A qualidade humana mais rara é a coerência e a constância no modo de agir e pensar. ” Jeremy Bentham


O filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham (1748-1832), considerado “pai” do utilitarismo como filosofia moral, inicia sua obra “Uma introdução aos princípios da moral e da legislação”, abordando “O princípio da utilidade”.

Ao invés de pensar os termos “útil, utilidade e utilitarismo” sob viés pejorativo, entenda-se “princípio da maior felicidade”*, até porque, útil é que nos torna felizes e o objetivo do princípio da utilidade é construir o edifício da felicidade através da razão e da lei.


Bentham afirma que a natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer e que somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na realidade faremos.

Ao trono desses dois senhores, diz ele, está vinculada, por uma parte, a norma que distingue o que é certo do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e dos efeitos.

Segundo Jeremy Bentham, a dor e o prazer governam tudo o que fazemos, dizemos e pensamos: “Através das suas palavras, o homem pode pretender abjurar [renegar] tal domínio, porém na realidade permanecerá sujeito a ele em todos os momentos da sua vida. ”

A fim de esclarecer como poderá se dar o aperfeiçoamento de uma ciência moral, o filósofo define o que significa então seu “princípio da utilidade” (reitero, princípio da maior felicidade, pois segundo ele, a palavra “utilidade” não ressalta as ideias de prazer e dor com tanta clareza como o termo “felicidade”).

Pois bem, por princípio de utilidade entende-se aquele princípio que aprova OU desaprova qualquer ação, segundo a tendência que tem a aumentar OU a diminuir a felicidade da pessoa ou (o que é a mesma coisa), segundo a tendência a promover OU a comprometer a referida felicidade. E ressalta: QUALQUER AÇÃO, seja do indivíduo particular e/ou qualquer ato ou medida de governo.


Em Jeremy Bentham, o termo utilidade designa aquela propriedade existente em qualquer coisa, propriedade em virtude da qual o objeto tende a produzir ou proporcionar benefício, vantagem, prazer, bem ou felicidade OU a impedir que aconteça o dano, a dor, o mal, ou a infelicidade para a parte cujo interesse está em pauta.

Se esta parte for a comunidade em geral, tratar-se-á da felicidade da comunidade, ao passo que, em se tratando de um indivíduo particular, estará em jogo a felicidade desta pessoa.

Uma das expressões mais comuns que pode ocorrer na terminologia e na fraseologia moral, diz ele, é “o interesse da comunidade”, que constitui um corpo fictício, composto de pessoas individuais, seus membros. Interesse da comunidade nada mais é que soma dos interesses dos diversos membros que a integram.

Atento, infere que é inútil falar do interesse da comunidade, se não se compreender qual é o interesse do indivíduo: “Diz-se que uma coisa promove ou favorece o interesse de um indivíduo, quando tende a aumentar a soma total dos seus prazeres, ou então, o que vale afirmar o mesmo, quando tende a diminuir a soma total das suas dores. ”

Sendo assim, uma determinada ação está em conformidade com o princípio da utilidade quando a tendência que ela tem a aumentar a felicidade for maior do que qualquer tendência que tenha a diminuí-la: “Pode-se afirmar que uma medida de governo (a qual constitui apenas uma espécie particular de ação, praticada por uma pessoa particular ou por pessoas particulares) está em conformidade com o princípio de utilidade – ou é ditada por ele – quando, analogamente, a tendência que tem a aumentar a felicidade da comunidade for maior do que qualquer tendência que tenha a diminuí-la. ”

Para Bentham, quando uma pessoa supõe que uma ação ou, em particular, uma medida de governo, está em conformidade com o princípio de utilidade, pode ser conveniente imaginar uma espécie de lei ou ditado de utilidade.

Uma pessoa é partidária do princípio de utilidade quando a aprovação OU a desaprovação que dá a alguma ação (ou a alguma medida), for determinada pela tendência que, no seu entender, tem a aumentar OU a diminuir a felicidade da comunidade; pela sua conformidade (ou não) com as leis OU os ditames da utilidade.

De uma ação que é conforme ao princípio da utilidade (felicidade), podemos sempre afirmar que ela deve ser praticada, que é reto praticá-la (no mínimo, que não é proibido). Se assim forem interpretadas, têm sentido as palavras deveria, certo, reto, errado, o mesmo valendo de outros termos análogos. De outra forma, os mencionados termos carecem totalmente de significado, diz o filósofo.

Ele mesmo afirma que a justeza do referido princípio foi contestada por parte daqueles que não sabiam o que diziam e que este princípio não é suscetível de alguma demonstração direta, pois o princípio que se utiliza para demonstrar todas as outras coisas não pode ele mesmo ser demonstrado: “Uma cadeia de demonstração deve ter o seu início em algum ponto. Consequentemente, fornecer uma tal demonstração é tão impossível quanto supérfluo."

Em virtude da própria constituição natural, na maioria das ocasiões da sua vida, os homens geralmente abraçam este princípio sem pensar explicitamente nele: senão para orientar a sua própria conduta, pelo menos para julgar as suas próprias ações e as atitudes dos outros.

Refutar a justeza do princípio da utilidade com argumentos constitui tarefa impossível. Entretanto, em virtude das razões acima mencionadas, ou por motivo de uma visão confusa e limitada que se tem do princípio, é possível que uma pessoa não o aprecie. 

Se a pessoa estiver inclinada a crer que a própria aprovação ou desaprovação que dá à ideia de um ato, sem qualquer consideração pelas suas consequências, constitui para ela um fundamento suficiente para julgar e agir, façamo-la refletir consigo mesma sobre a seguinte questão: o seu modo de pensar deve ser considerado como norma do certo e do errado para todos os outros homens? OU será que a convicção de cada um tem o mesmo privilégio de constituir uma norma-padrão?


O princípio da utilidade, que dialogará com a economia (oikós = casa + nomós = lei, norma) é o princípio que estabelece como sendo a justa e adequada finalidade de nossas ações.

A finalidade justa de nossas ações, as adequadas e universalmente desejáveis, diz Bentham: ”(...) sobretudo na condição de um funcionário ou grupo de funcionários que exerçam os poderes de governo, pois abarca e zela pela promoção da felicidade de seus membros.

Como está claro, a adoção desse princípio deveria pautar nossa conduta, bem como a conduta de nossos dirigentes políticos: o que é útil no sentido de trazer felicidade a nós e o que é útil e traz felicidade ao povo.

Certamente atingiria sua finalidade desde que fosse incorruptível. No entanto, egoísmo, ganância e vaidade eclipsam o intento, deturpando o que deveria ser útil à uma vida prazerosa, genuína e licitamente feliz.



(*) “ A palavra “utilidade” não ressalta as ideias de prazer e dor com tanta clareza como o termo “felicidade”; tampouco o termo nos leva a considerar o número este que constitui a circunstância que contribui na maior proporção para formar a norma em questão – a norma do certo e do errado, a única que pode capacitar-nos a julgar da retidão da conduta humana, em qualquer situação que seja. Esta falta de uma conexão suficientemente clara entre as ideias de felicidade e prazer, por uma parte, e a ideia de utilidade, por outra, tem constituído um obstáculo para a aceitação do princípio acima, aceitação que, de outra forma, possivelmente não teria encontrado resistência”. 

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1 de ago de 2017

A Volta do Filho Pródigo


O que causa mais dano: luxúria ou ressentimento? Há tanto ressentimento entre os “justos” e os “corretos”. Há tanto julgamento, condenação e preconceito entre os “santos”. Henri J.M. Nouwen

Mitos, parábolas, lendas, alegorias, enfim, são muitos os clássicos relatos que preveem e revelam no que culminam nossas emoções ao nos compararmos com nossos “homói” (iguais): raiva, ódio, inveja, ciúme, desprezo, mágoa, amargura, vingança, ressentimentos, etc.

Na sublime obra de Rembrandt (1606-1669) “A Volta do Filho Pródigo” (acima), que está no Hermitage, em São Petersburgo (Rússia), está retratado o momento em que o pai acolhe o filho pródigo (esbanjador) sob o olhar do filho mais velho.

É famosa essa parábola bíblica narrada por Lucas, que conta a história de dois irmãos: o mais velho, correto, trabalhador, obediente, sempre junto ao lar; e o mais novo, que no afã de ganhar o mundo, apressa-se a pedir logo ao pai sua parte na herança e viaja para, longe de casa, desfrutar de suas aventuras.


Depois de dissipar todo o dinheiro numa vida de devassidão, o filho mais novo cai em desgraça, começa a passar privações e, lembrando-se de que até mesmo os empregados de seu pai possuem mais do que ele, se arrepende e volta em busca de perdão: “Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou mais digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados”.


Repleto de compaixão e generoso, mais do que perdoá-lo, de braços abertos, o pai o recebe em festa, cobrindo-o de beijos: “Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, pondo-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois, este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado!”.

Já o filho mais velho, que estava no campo, ao se aproximar da casa paterna, indagando a um servo o porquê de tanta festa que escutara de longe, ouve que é por causa do retorno de seu irmão, que muito alegra ao pai.


Indignado, o filho mais velho recusa-se a adentrar ao lar; seu pai então sai para suplicar-lhe, mas ele lhe responde; “Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse teu filho [aqui ele já se distancia do irmão], que devorou teus bens com prostitutas, e para eles matas o novilho cevado!”.

Foi quando o pai lhe disse: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois, esse teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi encontrado!”.

É fácil identificar aqueles que se encaixam no perfil do filho pródigo (gastador): trata-se do perdulário, do fanfarrão, inconsequente; daquele que se esquece que dinheiro não leva desaforo e, não demora muito, se vê rodeado de dívidas, em penúria, na miséria. É um “bon-vivant”, tal qual a cigarra da fábula, um hedonista, enredado por uma vida de prazeres, que pensa ser eterna.

Analisando este comportamento, o padre holandês Henri J.M. Nouwen afirma: “Há algo de claramente definido a respeito de sua má conduta. Depois, tendo visto que esse procedimento errado não levava senão à miséria, o filho mais jovem recobrou o bom senso, deu a volta e pediu perdão. Temos aqui uma falha humana clássica, com uma decisão acertada. Fácil de entender e fácil de aceitar.”.


Sabemos que, mais dia, menos dia, se mal-empregado, o dinheiro acaba, os amigos interesseiros se vão, e lá está a pessoa, arrasada, endividada, arrependida. Qual pai – ou mãe – não perdoaria, não acolheria em seus braços, saltitando de alegria pela recuperação do desregrado degradado? E por que assim, pronta e efusivamente procedem?

Saltitam de alegria pura e simplesmente porque amam. O amor é sempre a resposta. Esse amor filial é como – para os que creem – como o de Deus: incondicional. Não importa o que façam ou o quanto deixem de fazer, filhos – sobretudo os distantes – são muito amados e ansiados por seus pais.


Mas, e o irmão? Revoltado, é envenenado pela raiva e profundamente ressentido que ele protesta: “Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só de teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos.”.

Nessa reivindicação, condenando a alegria do pai pela chegada do irmão mais jovem, entrevemos que a obediência e o dever foram um peso, e o trabalho, uma escravidão. Ele cumpriu o seu dever, trabalhou duro, deu conta de suas obrigações, mas se tornou amargo, sentiu inveja da vida desfrutada pelo irmão mais novo. Por acalentar tais sentimentos, ele também se tornou um perdido.
 
A Volta do Filho Pródigo, por Pietro Faccini.

Ambos precisam de cura e de perdão, mas a conversão mais difícil, o resgate mais árduo é justamente o desse irmão mais velho, que se tornou um ressentido.

Nouwen esclarece que essa queixa íntima é sombria, pesada, faz com que a pessoa se ache a mais incompreendida, rejeitada, negligenciada e desprezada do mundo: “Essa experiência de não poder partilhar da alegria [do próximo] é a experiência de um coração ressentido. O filho mais velho não podia entrar na casa e partilhar da felicidade de seu pai. Sua mágoa íntima o paralisava e o deixava taciturno [quieto, calado].”.

Essa parábola lega a preciosa lição de aprendermos a reagir ao amor de Deus sobre os outros.

Vaidoso, ferido em seu orgulho, será que o irmão mais velho está disposto a admitir que não é melhor que seu irmão mais jovem, o filho pródigo?

Convém abandonarmos toda comparação, rivalidade, competições, enfim, buscar a luz, pois fora da luz, diz Nouwen, os outros sempre parecem ser mais amados pelo Pai do que eu; de fato, fora da luz, não posso mesmo vê-lo como meu próprio irmão. Na escuridão, prossegue, irmãos e irmãs, maridos e esposas, amantes e amigos se tornam rivais e mesmo inimigos, cada um eternamente empestado de ciúmes, suspeitas, ressentimentos.


E, nessa categoria de dor, afirma Nouwen, tudo perde sua espontaneidade: “Tudo se torna suspeito, constrangedor, calculado e cheio de segundas intenções. Não há confiança. Cada pequeno passo requer uma retribuição; cada pequena observação pede uma análise; o menor gesto tem de ser medido. Esta é a patologia da escuridão, daqueles que estão perdidos, precisam ser encontrados e trazidos para casa.”.

Sentir medo ou mostrar desprezo, submeter-se ou controlar, oprimir ou vitimar-se... Assim vivem, nessa luta contra a auto rejeição e o desprezo, os que optam por comparar-se. Trata-se de um combate ferrenho, árduo, contínuo, pois o mundo e seus demônios conspiram para que – nos comparando – nos consideremos sem valor, incapazes e insignificantes.

Como atesta Henri Nouwen, nem ganância, nem raiva, nem luxúria, nem ressentimento, frivolidades ou ciúmes estão totalmente ausentes em nós; nossa imperfeição pode ser vivenciada de muitas maneiras, não há ofensa, ciúme ou guerra que não tenha raízes em nossos próprios corações. Por isso é tão importante cultivarmos a gratidão, atitude que não coexiste com o ressentimento. Ao que de bom e benéfico ocorrer a um irmão, sejamos gratos.

É difícil admitir, mas talvez esse amargo e ressentido filho mais velho esteja psiquicamente muito mais perto de nós do que gostaríamos. Os “pharmakons” para esses sentimentos é a confiança e a gratidão, essas são as matérias para a conversão.

Podemos escolher, sempre podemos optar por viver nas trevas –, nos queixando, mesmo que em silêncio, cultivando o ressentimento –, ou partir em busca da luz –, alegrarmo-nos pelas bênçãos aos nossos semelhantes.


Dedicado ao inestimável e inesquecível Mestre, Prof. Dr. Marcelo Perine.


PS: Confira Programação para Itália em final de Setembro, AQUI

E vídeos disponíveis no Youtube digitando "luciene felix lamy"

Clicando sobre a imagem, ela amplia.



Luciene Felix Lamy
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-romana.
E-mail: mitologia@esdc.com.br

21 de jul de 2017

Luciene Felix Lamy - Mitologia Grega


Entrevista (06/07/2017) concedida à jornalista Clara Monforte no Programa "Olhos nos Olhos", veiculado pela TV Santa Cecília - Santos, SP


Informações sobre Curso de Mitologia Grega na Galleria Borghese, clique AQUI.







E-mail: mitologia@esdc.com.br


1 de jul de 2017

A prova da posição: não basta competência, tem de se ter moral


A maioria das pessoas não pode experimentar uma existência completa e frutífera isoladamente, pois “ser”, “existir” é entreter relações que, vividas com um espírito de mutualidade, podem produzir muitos frutos.

A participação do indivíduo no processo social pode edificar ou manter, transformar ou destruir valores sociais. Essa participação também pode implicar alegria e sucesso OU tristeza e fracasso, tal como a advinda da escravização a um ritmo alheio e insalubre de trabalho que resulta, no máximo, na manutenção da existência com relativo conforto material.

A contribuição de uma pessoa aos processos sociais – seja nas tarefas do lar ou numa empresa, nos campos ou no mar – estabelece seu lugar e função na sociedade, sendo que o caráter do relacionamento entre o “eu” individual e este fator de lugar e função também poderá coincidir e explicitar traços basilares de sua personalidade.

É em virtude disso que não se pergunta “quem você é”, mas, de praxe indaga-se: “o que você faz?”. À medida que vivemos, nosso “lugar”, nosso “ser” será por esse modo determinado, pois “ser” equipara-se a “fazer”, ao agir.


Em algumas sociedades, o fator “lugar-função” é quase predeterminado pelo nascimento e por herança (região geográfica, raça, família, classe social, etc.), no entanto, ainda que a discriminação racial, econômica e educacional limite o campo de oportunidades para muitos, nos países democráticos mais desenvolvidos, há certa liberdade de escolha (ao menos teoricamente) quanto ao lugar e função que optamos por ocupar dentro da sociedade.

Uma pessoa que funcione ativamente, de acordo com o lugar por ela ocupado na sociedade, tem uma “posição”, onde vemos combinados muitos elementos sociais e psicológicos, que permite a ela exercer algum tipo de influência e autoridade, adquirindo um “status” – do ponto de vista social – de destaque com referência a um todo operativo e organizado.

Desde que a função seja preenchida com competência, confere-se prestígio àqueles que a desempenham. Entretanto, uma sociedade que prestigie indivíduos que não satisfaçam, ativa e eficazmente suas funções com retidão de caráter torna-se uma sociedade pervertida em seu “télos” (propósito).

A posição do ser humano na sociedade tem de ser uma fruição social de sua identidade individual, ou, dito de outro modo, a prova e a consagração de sua realização como indivíduo no meio em que vive. O crivo sobre seu ser enquanto indivíduo deve ser observado com acuidade pela sociedade antes de outorgar prestígio e conferir autoridade.

Essa “com-sagração” suscita uma questão nevrálgica, pois a união de uma pessoa com uma função significativa pode ser a consumação de toda a sua existência. A posição que ocupamos pode coroar aquilo que almejamos e podemos ser.


Nenhuma posição é menos nobre e digna que qualquer outra: a dona de casa que vai ao supermercado, prepara os alimentos e cuida da casa, o gari que recolhe o lixo, o advogado e o juiz, o artista e o político, todos somos necessários. O que importa é a maneira pela qual as pessoas desempenham essas tarefas, pois isso determina não só a sua situação ética (social) como também sua situação moral (pessoal).

A qualidade desse desempenho é determinada também pela maneira com a qual – gradativamente – as pessoas se prepararam e foram preparadas (referimo-nos à educação), pois não se pode participar ou contribuir com o que não se tem.

No exercício de suas funções, as pessoas podem vivenciar circunstâncias nas quais detêm poder e autoridade, mas a autoridade que uma função confere não é um poder emanado pelo indivíduo enquanto organismo isolado e sim, fruto da interdependência e cooperação acordados pelo grupo.

Este poder (oriundo da função ou do cargo que se ocupa) pode ser custódia OU pilhagem. A tragédia de nossa democracia individualista está em – sutil ou grosseiramente –, fazer o sujeito considerar todo o poder ou autoridade que lhe vem parar às mãos como sendo decorrência de seus méritos, como algo inerentemente (e sem reservas morais!) “seu”, e não prerrogativa que logra por ocupar com honradez uma função dentro do “Todo”.


Suscetível, este poder ou autoridade corre o risco de ser usado como se bem entender, sem levar em conta a função social: o poder ou autoridade não é um fator “privado”, mas “público”. 

Sempre que o indivíduo adquire poder por causa de sua posição (ou função), esse poder deve ser considerado custódia. O poder do policial, do juiz, do médico, do general e de todas as autoridades públicas, por exemplo, é, e com razão, uma custódia. Isso porque trata-se de um poder decorrente do cargo, nascido da função social.

São muitos os indivíduos que chegam aos altos cargos por mérito pessoal. Mas o poder do cargo advém da função social que esse cargo representa, não necessariamente do mérito, passível de vir a ser simulado. Eis a origem da confusão que transmuta o poder democrático – autoridade legítima – em poder autoritário, que é a tirania. Compreender essa visceral discrepância permite-nos diferenciar os lícitos detentores dos meros usurpadores do poder.

Simulando mérito, o individualista grosseiro viola a sociedade a fim de alimentar sua insaciável ambição. Utiliza os recursos da “res publica” para promover seus interesses pessoais. No processo, perde-se todo o sentido de consagração pessoal a uma tarefa, negligencia-se o valor ético da “posição”, que é eclipsado.

Usar do cargo, da posição para obter vantagens pessoais é perversão de valores, pois toda vez que um indivíduo usurpa o poder social inerente a seu cargo ou função a fim de expandir seu ego e sua riqueza toda a sociedade padece.

Sempre que o núcleo central de poder e autoridade, que é o Governo, compactua com a decadência moral de seus servidores, arruína toda a nação.

Urge que haja harmonia e consenso entre essas polaridades: o indivíduo precisa exercer poderes inerentes ao cargo, mas esse exercício deve pautar-se pela ética, estar sob custódia e sempre em prol da coletividade.

Indivíduo e sociedade se encontram quando o homem e seu cargo tornam-se uma coisa só (e ambos, sagrados!), até porque, permitir que o homem se valha do poder e da autoridade decorrente de seu cargo para satisfazer os caprichos de seu ego e de sua ganância é um assombroso crime, pois de alcance gigantesco e profundo, é também fatal.


Joguete, refém de todo o tipo de perversidade (desemprego, balas perdidas, vícios, prostituição), o povo definha, morre, ao passo que os prepotentes, sem respaldo moral, se tornam cada vez mais arrogantes e autocráticos, pois vaidosos imaginam serem os únicos capazes de ocupar a posição que ocupam. 

Em linhas gerais, eis o que redunda no nefasto retrato da purulenta situação política de nosso vilipendiado país.


luciene felix lamy
colunista de filosofia do jornal jurídico carta forense (sp)
professora de filosofia e mitologia greco-romana na galleria borghese (roma) e pinacoteca benedicto calixto (santos)
coordenadora da oficina minha biografia na pinacoteca benedicto calixto (santos)
colunista de astrologia & arte no consueloblog (florença)



Inspirado na obra "Tríptico Astrológico" do Filósofo, astrólogo, cristão, Dane Rudhyar (A prova da posição - Capricórnio).
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br