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11 de jan de 2008

O Matriarcado e o voto de Minerva


A deusa grega Palas Athena (Minerva para os romanos), ao julgar o crime de matricídio cometido por Orestes, proferindo o “voto de Minerva” estabelece a superação de Thémis (Leis mais antigas – matriarcado) por Diké (a Nova Lei – patriarcado).

Um dos mais intrigantes julgamentos mitológicos que se tem registro na história de nossa civilização ocidental, ocorreu no Areópago de Atenas e chegou-nos pelas mãos pioneiras do veterano tragediógrafo Ésquilo. É na terceira obra de uma trilogia chamada “Oréstia”, intitulada “Eumênides” (548 a.C.) que a deusa da Sabedoria e da Justiça Palas Athena irá presidir com maestria o tribunal que julgará o crime de matricídio de Clitemnestra, mulher e assassina do lendário Rei de Esparta Agamêmnon, cometido por seu filho Orestes. O filme “Tróia”, do diretor alemão Wolfgang Petersen, estrelado pelo ator Brad Pitt, omite, dentre outros fatos, o desvario de Agamêmnon em sacrificar sua filha Ifigênia para conseguir atrair bons ventos e poder assim partir para conquista e pilhagem da antiquíssima e rica Tróia. O que motivará seu assassínio pela esposa.

Antes que sejamos acometidos pela confusão em meio a tanto sanguine coniunctae vamos esclarecer: Ésquilo e Sófocles são os primeiros (e insuperáveis) exponenciais da tragédia grega a abordar a hamartía, marca da maldição familiar, portanto, hereditária.

Ésquilo abordará o desdobramento da hybris (desmedida) iniciada por Tântalo ao sacrificar seu filho Pélops e oferecê-lo num banquete a fim de testar a onisciência dos deuses. Diz o mito que a deusa Deméter, tomada por preocupação e angústia devido ao desaparecimento da filha Perséfone, foi a única a, distraidamente, ingerir um pequeno pedaço da funesta iguaria. Os deuses decidem restituir a criança à vida e restauram o pedaço do ombro ingerido por Deméter, em mármore. Esta marca – hamartía – irá acompanhar toda geração descendente de Tântalo. E para ele, Tântalo, o pior dos castigos: enterrado vivo até a cabeça, com água e alimentos próximos, condenado a permanecer eternamente sedento e faminto. Quando perto de realizar sua satisfação, esta, invariavelmente, se afasta. É dessa linhagem maldita que sairão os irmãos Agamêmnon e Menelau, o marido de Helena. Portadores da maldição dos Atridas, da Casa de Atreu.

Sófocles, por sua vez irá discorrer sobre a maldição da Casa dos Labdácias, que tem início com o desrespeito a sagrada Lei da Hospitalidade, por parte de Laio que, ao nutrir uma condenável atração pelo filho de seu anfitrião, raptou o jovem Crísipo, filho do Rei Pélops, outro de família marcada. Muitos intérpretes constatam aqui o registro do início da pederastia na grécia. Teria sido Laio, pai de Édipo, pioneiro no hediondo crime de pedofilia?

No artigo anterior versamos sobre o conflito que se dá no interior da psique humana quando do embate entre Thémis e Diké, presentes em “Antígona”, terceira obra que compõe a trilogia de Sófocles, as outras duas são: “Édipo Rei” e “Édipo em Colono” (bairro de Atenas). Neste texto de Ésquilo, o confronto se dará fora de nós, na pólis, mais explicitamente através dos ajustes políticos que se fazem necessários, entre o matriarcado e o patriarcado.

Os poetas-aedos (cantores) retratam a história da luta entre os antigos deuses, fundadores da velha ordem e os novos deuses, archotes das novas leis pois a pólis, o meio político – habitat natural do animal racional – já se delineia na Hélade, nome da antiga grécia.

Por estarmos comemorando neste mês o Dia das Mães, recortaremos aqui uma das questões mais originais suscitadas neste julgamento de Orestes pelo matricídio. Sem ironia alguma, trata-se de um fecundo tema. Temos o registro da evolução da história, o mito e seu desdobramento no mundo atual.

Para a religião arcáica (cerca de 1.200 a.C.), que tem como herdeiros Homero e Hesíodo, a mais antiga Lei era a das profundezas da terra. Quem derrama sangue materno ofende e viola o direito inexorável da terra-mãe. As Erínias, apresentadas pelos primevos poetas, também conhecidas como “As Fúrias”, a vingança, nascidas do sangue que jorrou dos órgãos genitais de Urano (Ouranós, os Céus), ceifado por seu filho Chronos (o tempo, Saturno para os romanos), implacavelmente perseguiriam não deixando impune o mais aviltante crime contra a própria natureza. Para esta cultura só existe um laço sagrado: o de mãe e filho.

Retomando o desenrolar da machina fatalis: Agamêmnon sacrifica a filha Ifigênia, é assassinado pela mulher Clitemnestra e vingado pelo filho Orestes, por ordem expressa do deus Apolo.
Orestes, apavorado com as Erínias sob seu encalço, profundamente perturbado mas, respeitosamente, procura abrigo no templo da deusa da Justiça. Abraçado aos pés da estátua de Palas Athena, suplica por um julgamento e, contando com a pronta defesa do deus da harmonia Apolo, anseia por acolher o veredicto que vier.

Uma mudança não se dá sem luta. O filósofo pré-socrático Heráclito já nos alertava; “A guerra é Pai de todas as coisas”. Chegou o inadiável momento em que se travará o definitivo embate entre: a) de um lado, as ctônicas forças das profundezas da terra, a natureza germinadora, das trevas subterrâneas do Hades, personificações antropomórficas (que o homem constrói imageticamente à sua semelhança) dessas potências (as Erínias representam o matriarcado) e; b) do outro, o dia claro da razão, a nova luz do Olimpo presidido agora por Zeus, o lógos que se impõe à instauração da política humana que se assenta em Diké, a lei da pólis (Apolo e Palas Athena, arautos da nova ordem, representam o patriarcado).

Todo processo de julgamento de Orestes procede-se cerimoniosamente como o instituímos até hoje, mais de vinte e cinco séculos depois: apresenta-se o réu e a denúncia, o advogado de defesa (Apolo) e as acusadoras (as Erínias), o júri (doze atenienses) e a juíza (Palas Athena).

Quando Orestes indaga ao coro porque as Erínias não perseguiram sua mãe Clitemnestra ao matar seu pai, este afirma não ter sido cometido crime contra o sangue, ao que ele prontamente indaga: “e eu seria, por acaso, do sangue de minha mãe?” Indignadas, as Erínias perguntam: “Não foi ela, assassino, quem te alimentou em seu seio? Renegas o dulcíssimo sangue materno?”.
Para o matriarcado, o pai, seja ele quem for, apenas deposita a semente na mulher, como um lavrador anônimo que semeia a terra, verdadeira fonte de tudo o que brota.

Já para o patriarcado, a mulher é, assim como a terra, apenas depositária da semente, sendo, portanto, o pai o grande responsável pelo que brota, enquanto a mãe, forma, matriz fria e passiva não gera, apenas alimenta o germe nela semeado.

O argumento apresentado na defesa de Orestes por Apolo alude ao nascimento da juíza Palas Athena, ela mesma gestada nas meninges de Zeus e parida pela machadada certeira do ferreiro divino Hefestos (Vulcano para os romanos).

Iradas com Apolo, as Erínias vociferam e ameaçam: “Tu jovem deus, esmagas nossa velhice, mas aguardo a sentença e contenho até lá minha cólera contra a cidade”.

Enquanto os doze cidadãos atenienses depositam seus votos na urna, a deusa da Justiça esclarece: “Serei a última a pronunciar o voto. E os somarei aos favoráveis a Orestes. Nasci sem ter passado por ventre materno; meu ânimo sempre foi a favor dos homens, à exceção do casamento; apóio o pai. Logo, não tenho preocupação maior com uma esposa que matou o seu marido, o guardião do lar; para que Orestes vença, basta que os votos se dividam igualmente”.

Faz-se silêncio. Diante da ansiedade de todos os presentes, uma pausa. A deusa dá seu veredicto: “Este homem está absolvido do crime de matricídio porque o número de votos é igual dos dois lados”. Há em jogo algo mais relevante neste tribunal in dubio pro reo, neste tribunal da justiça e não da vingança.

Com o “voto de Minerva” dá-se o estabelecimento da supremacia da luz do lógos sobre as “Fúrias”, forças ctônicas da natureza. O pai, guardião do lar e não a mãe, tem a prioridade do direito que procede de Zeus, pai de ambos, Apolo e Palas Athena. Estes são os novos deuses, os do Olimpo, com suas novas leis.

Sobre o inconformismo das imortais Erínias, habitantes das entranhas da matéria elas, filhas da noite, que originam toda espécie de vida “detentoras do nascer e do morrer, os dois pontos finais entre os quais, segundo Platão, move-se a trajetória de todas as coisas”, vaticinam sérias ameaças à cidade de Atenas.

A sapientíssima juíza, gestada na cabeça (razão) de Zeus, graças à arte da retórica, conteve as “Fúrias” com incomensurável empenho. Reconhecendo seus poderes, prometendo-lhes mansões e templos dignos, tem seu voto de desempate acolhido pelas Erínias que passam a ser reverenciadas em Atenas e a ser chamadas “Eumênides”: as benevolentes (daí o título da obra). Quem mais senão a diplomática Palas Athena, com seus lúcidos e irrefutáveis argumentos para aplacar as Erínias?

Por não vivermos mais numa sociedade exclusivamente agrária, governada e endeusadora da terra e da fertilidade, por termos agora que estabelecer novas leis conciliatórias sobre a violência que nasce da vingança dos crimes de sangue, do “sanguine coniunctae” que dizimava famílias inteiras na Hélade, o direito ao julgamento, a política da pólis se impõe: Vitória do Lógos!

Elementar que a contagem de votos tenha empatado: o filho é do pai tanto quanto também é da mãe. Superada a fúria cega das forças brutas, indiscriminadamente germinadoras, caberá à pólis deter o caos e instaurar a ordem.

Poder germinador da terra: dom e graça das Mães. Em nossa desequilibrada sociedade atual constatamos que, definitivamente, não é mais sábio (Palas Athena) nem harmonioso (Apolo) que o exerçam sozinhas, quando antes da pólis.

Do ventre das férteis Erínias de nosso solo proliferam frágeis e desamparadas sementes, de irresponsáveis (posto que ausentes) lavradores anônimos. Pipocam falcões: frutos das brutas potências titânicas da natureza, abandonados ao descaso dos tirânicos da pólis. Crias da escuridão e da injustiça, trágica e inocentemente distantes da luz de Apolo e/ou da justiça de Palas Athena. À espreita, o desumano terror do insondável reino do Hades para onde precoce e violentamente regressam após agonizante existência.

Para as Mães e os Políticos, o sublime Hölderlin (poeta alemão 1770-1843)*

Os Poetas Hipócritas

Dos deuses, ó frios fariseus, não me faleis:
Pois de razão viveis, e em Hélios não acreditais,
E nem mesmo no Tonante, e nem no deus do mar!
Jaz a terra morta, e quem deve agradecer?
Paciência, deuses, que o cantar ainda laureais,
Mesmo em fuga esteja a alma aos nomes vossos!
E quando falte um verbo de grandeza,
Que em ti se pense então, Mãe Natureza.

(*) Canto do Destino e outros cantos – Friedrich Hölderlin. Organização, Tradução e Ensaio Antonio Medina Rodrigues. Ed. Iluminuras, 1994 – São Paulo, SP.

2 comentários:

Anônimo disse...

Cara Luciene,

Gostei da explanação sobre o respectivo voto. Se faz mister, dentro de minha profissão: Advogado.

Obrigado.

Lucio Viana

Anônimo disse...

Embora o lavrador porte a semente, é divino o dom da natureza... O alerta é para que o fruto não fique sem os cuidados daqueles que o geraram e da sociedade em que se insere, sob pena de perecer precocemente...

Oripes A. Franco

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ESCOLHA & CLIQUE (leia no topo). Cultura faz bem ao Espírito!

Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

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Transição do matriarcado para o patriarcado

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Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

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Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

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